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sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo!
Eu sou eu. Tu és tu.

O que fomos um para o outro ainda somos;
Dá-me o nome que sempre me deste;
Fala-me como sempre me falaste;
Não mudes o tom para triste ou solene;
Continua a rir com aquilo que nos fazia rir juntos;
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em nossa casa

como sempre se pronunciou.
Sem tristeza nenhuma, sem lástima alguma.
A vida continua a significar o que sempre significou.
Continua a ser o que sempre foi.
Entende, meu querido:
O cordão da união não se partiu!
Porque estarias tu fora dos meus pensamentos,
apenas porque estou fora da tua vista?
Não estou longe!
Aliás, estou muito perto de ti...
Apenas do outro lado do caminho...
Não te entristeças; em breve verás que tudo está bem...
Redescobrirás o meu coração e nele

a ternura mais pura que sempre tivemos um pelo outro!
Isso nunca acabará!
Até ao nosso reencontro!
Seca as tuas lágrimas e, se me amas como eu a ti,

não chores mais.....

(Santo Agostinho)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Deveria ser proibido que a morte chegasse antes das manifestações suficientemente abundantes do nosso apreço pelo outro. Penso nas palavras não ditas, nos elogios que – por vergonha ou estupidez – deixamos por fazer... Mas, visto que à morte lhe é indiferente que o tenhamos já feito ou não, e visto que insiste em chegar – a nosso ver – de forma sempre prematura e imprevista, ficamos nós com o dever inadiável de nos anteciparmos a ela.
(João Delicado, sj)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro
in Poemas Inconjuntos (1913-1915)

A noção de transitoriedade, o efémero e o eterno. A intimidade com a morte.
A Primavera como aquilo que mais se deseja. O esperado.
Como o melhor tempo, aquele que está para vir, mas chegará. Chega sempre.
Alberto Caeiro sabe que sim. A Primavera chegará, mesmo que ele já tenha partido.
(Sandra Raimundo)
O DOM DO ENCONTRO

Estamos aqui, condenados à morte, em busca de força para fazer um caminho que traz inquietações a cada momento, mas que também nos leva mais a cada passo. Não estamos sós – nunca se está só quando se espera alguém – porque há quem queira construir este caminho connosco, esquecendo-se do seu.

Há alguém que nos segue em silêncio. Diferente dos outros, não nos ajuda a levantarmo-nos quando caímos, mas também não se aproveita da proximidade para nos derrubar. Anda por aqui à nossa espera, admirando a forma como sonhamos e a força com que lutamos pelas realizações da nossa vida. Por vezes, empresta-nos a sua vontade e dá-nos mais firmeza e coragem para sermos felizes. E somos. Mesmo quando não nos damos conta disso.

A vida de cada um de nós é essencial para Deus. Mas, que razão o terá levado a criar para si mesmo esta prisão?

O amor é a entrega da vida. É saber que se é um meio para que o outro seja feliz. Uma força pura para a realização dos sonhos de outrem. Um sentido para a vida.

Neste mundo, os dias do amor são sempre curtos.

É urgente perceber que não vamos ficar aqui para sempre. Este mundo não é, contudo, um lugar menor. É um espaço e um tempo de belezas infinitas. É preciso olhar de forma pura o que nos rodeia, aprender a ver outra vez o sol e a chuva, a areia e as ondas. Que são sempre belas, desde que quem as sente as faça assim.

Se tudo te parecer cinzento e calado, talvez esteja assim... porque tu queres.

Afinal, para mudar uma paisagem, é preciso mudares o que sentes.

(Por José Luís Nunes Martins – investigador)

«Não busco esquecer a tua presença, apenas busco conviver com a enorme dor da tua ausência.» (A.D.)