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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

SOU UMA MÃE QUE TAMBÉM PERDEU UM FILHO


Foi há 25 anos que Emília Agostinho perdeu o filho de sete anos num acidente de automóvel no centro de Lisboa. Hoje preside a uma associação que apoia pais em luto.
«O meu filho andava num colégio em Alcântara, em Lisboa, e o pai trabalhava também em Alcântara. Era bancário. Vou contar um pouco do que o meu filho me disse antes de morrer. O meu filho começou com sete anos a falar de morte. Falava muito insistentemente. Dizia que ia morrer. E eu dizia: "Pois vais, vamos todos, um dia."

– Ó mãe! Mas eu vou morrer agora.

– Ó Rodrigo, não digas isso! Já viste o que era a mãe ficar sem ti?

– Ó mãe, tu deixas de me ver, passo a ser invisível, mas eu vejo-te…

– Rodrigo, pronto. Vamos acabar com esta conversa.

– Mas mãe, é verdade. E vou para um sítio muitoooooo lindo. Muito verde.

– Mas como é que tu sabes?

– Porque eu às vezes de noite vou lá, converso com Jesus e Ele já me explicou tudo.

Aquilo começou a intrigar-me. Até pensei que, se calhar, seria bom levá-lo a um psicólogo.»

Rodrigo morreu numa segunda-feira de Janeiro.

Na véspera, domingo, Emília Agostinho convidou uma amiga dele para passarem o dia juntos. Brincaram, almoçaram, lancharam, brincaram mais, até praticamente à hora do jantar. Rodrigo estava contente, tinha sido um dia feliz e, no dia seguinte, ir-se-ia embora para sempre, disse à mãe. A conversa ficou assim. Antes de dormir ainda lhe pediu que comprasse uma prenda para a professora.

Na segunda-feira, Rodrigo parecia abatido. Emília levou-o ao colégio, depois foi trabalhar, mas sentia um "aperto no coração" e telefonou ao marido. Pediu-lhe para dar um salto à escola e confirmar que estava tudo bem com o menino. Estava. Mas o pai decidiu, ainda assim, ir buscá-lo à hora de almoço e deixá-lo na casa da avó.

Pouco depois, Emília recebia um telefonema. Alguém explicava que tinha havido um acidente. Emília descreve, com detalhe: «Um colega foi comigo ao Hospital de São José, mas às duas por três desapareceu. Eu andava ali para trás e para diante, não me diziam nada, o meu colega tinha desaparecido (não tinha desaparecido, estavam a dizer-lhe o que tinha acontecido e ele não sabia o que fazer). Fui a um guiché, havia um rapaz novo, perguntei:

– Olhe desculpe, mas desapareceram-me as pessoas com quem eu vinha. Ninguém me diz nada. Deram aqui entrada um pai e um filho, por causa de um acidente?

– O que é que a senhora lhes é?

– Sou a mulher e a mãe do menino.

Ele baixou a cara. Entretanto, o meu colega viu-me no guiché e veio ter comigo.

– Emília, não adianta. O seu filho está morto.

Foi assim que o meu colega me disse. Coitado. A forma como ele me disse é horrível, mas foi como lhe saiu. Não me lembro muito bem o que aconteceu de seguida. Uma mãe tem imensa força... Ele, que é altíssimo, mais dois bombeiros, tentavam agarrar-me e não conseguiam. Queria ver o meu filho. Depois veio um médico. Trouxeram-me um copo com água, um copo com água turva...»

O que se segue não é claro na memória de Emília. Lembra-se de se sentir a ficar sem acção, por causa do medicamento que turvava a água, de a levarem para casa dos pais, de a empregada lhe perguntar: «Então, menina?», de ela responder: «Morreram os dois», de passar o resto do dia num sofá.

Foi há 25 anos que Emília perdeu o filho, com sete anos, e o marido, com 35, num acidente de automóvel no centro de Lisboa.


A bola dos matraquilhos

Emília Agostinho, 59 anos, é presidente da associação A Nossa Âncora, que presta apoio a pais em luto e tem 17 grupos de entreajuda espalhados pelo país. É uma mulher de sorriso largo, luminosa, com uma história terrível para contar e habituada a ouvir histórias terríveis. Mas acredita na felicidade. Hoje. Há 25 anos teve dúvidas. «Quando o corpo do Rodrigo foi para a Igreja São João de Deus apareceu-me uma senhora, no velório. Disse-me: "A senhora não me conhece. Mas isso não é importante. Sou uma mãe que também perdeu um filho. Queria dizer-lhe que ainda vai ser feliz, é uma felicidade diferente, mas vai ser." Nessa altura, olhei para aquela senhora, uma senhora de cabelo curto, mais velha, 50 e tal anos, que tinha um olhar muito sereno, enquanto me dizia: "Eu também fui capaz e achava que não era possível." Naqueles dias, ouvi muitas palavras de que não me lembro. Não é por mal, mas não ouvimos. Para além de que continuava medicada. Mas daquelas palavras, daquela desconhecida, lembro-me bem. Nunca mais a vi.»

Aos 34 anos, achava que era uma mulher forte. Tentou voltar ao trabalho sete dias depois, mas acabou de baixa. Ia diariamente ao cemitério e ficava lá de manhã à noite. «Há coisas absurdas que nos passam pela cabeça: olhava para o céu e pensava, "Ah! Se eu pudesse voar, subia, subia, subia, rompia o céu e ia ter com ele".»

Durante um ano e meio ficou a viver sozinha, na mesma casa onde vivera com o filho e o marido. «Nos grupos de entreajuda encontramos muitas vezes mães que pensam: "Eu estou a ficar maluca", por causa de certas atitudes. Coisas que só contam quando percebem que outros pais, na mesma situação, fazem parecido. Dou-lhe um exemplo. Durante um ano não mudei os lençóis da cama do meu filho, onde ele dormiu a última noite. Conheci um pai, num dos grupos, que apanhou os cabelos todos que tinham ficado nos lençóis da filha e guardou-os numa caixa. Eu tinha dado ao meu filho, no Natal, uma mesa de matraquilhos. E a bola tinha ficado parada num certo sítio da mesa. Havia uma senhora que ia lá a casa limpar e eu mandava vir com ela se a bola saía do sítio. Tinha que estar exactamente no mesmo lugar onde tinha ficado... Mais tarde, ela disse-me que já mal limpava com medo de tocar nas coisas.»

Há pais que transformam os quartos dos filhos em museus, onde ninguém pode entrar. Há pais que, mal chegam do funeral, desmontam a mobília toda, juntam brinquedos, querem-nos longe da vista. Há tempos, uma mãe confessou, num dos grupos, que mantinha na arca congeladora o bife que tinha temperado para o filho no dia em que ele morreu.

Cada pai e cada mãe vive a morte de um filho de maneira diferente. Há uma coisa que, diz Emília, é comum: «A dor. Dor física, mesmo, dor, dor.»


Nada como antes

Quando o Rodrigo morreu não havia associações de apoio a pais em luto. Pelo menos que ela conhecesse. Mas Emília sentia uma enorme necessidade de falar de Rodrigo, algo que, perceberia mais tarde, é frequente entre pais que perdem filhos. «Portanto, quando voltei ao trabalho, queria muito falar, falar, falar. Tive colegas excepcionais, só que as pessoas não estão preparadas. A certa altura diziam: "Bem, vamos mudar de assunto." Era a pior coisa que me podiam fazer. "Bolas, deixem-me contar a história!", disse uma vez.»

O tempo foi passando. Emília comprou a prenda para a professora de Rodrigo, distribuiu os brinquedos dele pelos colegas do colégio, foi à praia quando chegou o Verão, foi reconstruindo uma vida e teve um sonho que, diz, a ajudou. «O cabelo macio, os beijinhos molhados daqueles que as crianças dão, e o meu filho a dizer: "Não custou nada, ouviu-se uma buzina e pronto".»

Dois anos depois do acidente, casou-se – um casamento que acabou por não resultar – e teve um filho, o João. «Digo sempre aos pais que o luto é um processo até conseguirmos fazer a vida normal. Nada será como antes, acho que isso não é possível, porque reformulamos tudo. A dor continua. Mas há uma altura em que conseguimos falar do filho sem aqueles prantos. Aprendemos a viver com a dor. Não há tempos definidos. Cada pessoa precisa do seu tempo. Muitas vezes, estava-me a rir e a brincar com o meu filho João e as lágrimas a caírem-me... Aquele cheiro dos produtos para bebé fazia-me voltar para trás. Sentia uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo...»
O seu último trabalho no turismo foi numa agência de viagens, que acabou por fechar quando Emília já estava numa idade em que “não era fácil arranjar trabalho”. «Um dia estava em casa, com a televisão ligada num programa da manhã, e ouvi a Maria Emília Pires, que era a presidente da associação, a dizer que precisavam de voluntários. Depois, ouvi a maneira como ela falava da dor... Pensei: "É isto mesmo!" Foi quase há nove anos.» Emília Agostinho entrou como voluntária, passou a funcionária e sucedeu a Emília Pires na presidência.

Tem lidado com inúmeros pais e mães, muitos dos quais encaminhados por médicos e psicólogos, que procuram a associação para conversar ou para integrar um grupo. Mas há uns meses, foi ela quem deu o passo de procurar uma mãe e um pai. Era um dia especial.

«Faço voluntariado na paróquia, na distribuição de alimentos a famílias carenciadas. No dia em que fazia anos da morte do meu filho, estava a preparar sacos quando soube que na capela estava a ser velado um menino de 12 anos. Lembrei-me daquela senhora do velório do meu filho, que me disse aquelas palavras. Entrei na capela. Ninguém me conhecia. Fui ter com a mãe e o pai. E disse-lhes: "Vocês não me conhecem, mas eu sou uma mãe que perdeu um filho. Sei que isto é muito difícil, que vai ser uma caminhada, mas vim só para dizer que é possível. Desculpem, mas tinha de vir. Faz hoje precisamente 25 anos que o meu filho faleceu. Tinha sete anos." A mãe olhou para mim e fez-me uma festa na cara. Com aquele sofrimento todo e fez-me uma festa na cara! Vim-me embora. Senti uma grande paz.»


(Andreia Sanches)
AS CRIANÇAS E A MORTE

«As crianças e os adolescentes dão conta de tudo o que ocorre à sua volta e excluí-los de conversas francas sobre os problemas da família é estimular dúvidas, levantar barreiras ao convívio e impedi-los de aprenderem a lidar com a situação. A criança está rodeada de eufemismos, metáforas e mentiras acerca da situação de morte, que podem confundi-la e fazê-la sentir-se enganada, desconfiada e, até, culpada, ou então desamparada e só.
O facto de os pais terem muita dificuldade em conversar com os filhos sobre a morte sugere que se escolham maneiras de o contornar, utilizando situações em que o tema ocorra espontaneamente e num contexto impessoal: passagem de desenhos animados ou filmes, por exemplo. Se na conversa exprimirmos o que sentimos, isso pode ajudá-los a fazer o mesmo.
Na fase pré-escolar, as crianças sentem curiosidade e fazem perguntas quando um familiar, um animal ou um vizinho morrem. Não entendem que a morte é para sempre, porque ainda não têm a noção de irreversibilidade. Imaginam a morte como nos desenhos animados: a personagem morre e depois levanta-se outra vez e continua a aventura. Sentem desgosto quando perdem alguém próximo sem perceberem muito bem o que estão a sentir e o que está a acontecer. Por vezes, acreditam que os seus próprios desejos foram a causa do desaparecimento da pessoa. É como se tivessem perdido uma parte “de si”. Demonstram os seus sentimentos através da forma como agem, uma vez que não têm muito vocabulário para se exprimirem. Nos primeiros anos de escola aprendem que a morte é permanente. Algumas sentem-se responsáveis ou preocupadas em saber quem vai tomar conta delas. Têm medo de perder outro familiar. São mais directas na forma como lidam com o assunto e sentem necessidade de obter informação acerca do sucedido. Ao chegar à adolescência começam a compreender o porquê da morte (doença, acidente, velhice, etc.), demonstram curiosidade em saber pormenores do acontecimento, exprimem-se melhor, ainda que nem sempre o façam, apercebem-se de que os outros (familiares, etc.) também estão a sofrer.»

(Eva Delgado Martins, psicóloga)
SABER MORRER PARA SABER VIVER

«Curiosamente, tal como acontece com o envelhecimento, vivemos numa sociedade que tenta contornar e negar a morte. Tornou-se num assunto tabu. Não se quer falar. Sempre existiu no ser humano o desejo de querer beber o elixir da imortalidade para perpetuar-se no tempo e livrar-se da Tanatofobia. O medo da morte pode ser enfrentado. Há quem diga que só tem medo de morrer quem tem medo de viver.»

«Durante a nossa vida precisamos de enfrentar as nossas fragilidades. Existem mudanças com as quais sofremos, mesmo sabendo que são necessárias. Contudo, a aceitação de uma perda pode, inicialmente, gerar sentimentos de desespero, desamparo, ansiedade e medo. Na verdade, aceitar uma perda, implica ser capaz de continuar a vida sem a pessoa perdida. Quer quando acontece uma morte, quer quando um relacionamento se quebra, quer quando efetuamos mudanças na vida a que estão associadas perdas (saída da casa dos pais, mudança de emprego, mudança de cidade). Precisamos de aprender a viver com essas perdas. Implementar mudanças pode significar assumir novas responsabilidades, desenvolver a autonomia, ser capaz de tomar decisões sozinho.»

«O corpo, que é linguagem, vai morrendo desde que nasce, ao morrerem umas células dando lugar a outras. Somos sempre transformados e transfigurados. Além disso, também morremos no encontro com o outro, nas escolhas da vida, morremos nos nossos quereres e vontades, optando por algo que se considere maior e faça mais sentido.»


(D. Silva e C. Rodrigues, para Pátio dos Gentios)




«Não se descura que o medo de morrer é natural. É o medo do desconhecido que pode gerar sentimentos de impotência, de revolta e de vazio. Estes podem ser de tal modo fortes e avassaladores que, muitas vezes, não nos sentimos preparados para encarar a nossa finitude de forma pacífica. Precisamos, contudo, de aprender a aceitar a morte. Quanto mais consciência tivermos da nossa finitude, mais capazes seremos de dar valor à vida.»

(Inês Menezes, xispublico, 04-03-06)




«Questionarmo-nos sobre a morte leva-nos a questionar a própria vida e o seu sentido. Cada pessoa é diferente. Não deveríamos buscar um sentido abstracto da vida pois cada um tem a sua própria missão a cumprir; cada um deve levar a cabo um compromisso concreto.»

(Viktor Frankl)




«Apesar da condição de seres-para-a-morte, esta não deve ser entendida como um passo para o absurdo, mas sim um dos passos da nossa condição humana. A morte pode ser encarada de formas diferentes, depende de cada um. Numa perspectiva apenas de relação corporal a morte é o fim. Já na perspectiva onde a relação é de transcendência espiritual, podemos falar de ressurreição dado que somos seres de liberdade e também de esperança. Viver sem desesperar e ao mesmo tempo sem ter de iludir a angústia do morrer cada dia, nem da certeza de que um dia “tudo acaba”.»

(Vasco Pinto Magalhães, in Pensar a Morte).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A MORTE E A SAUDADE

Ao falar na morte, falamos inevitavelmente na saudade que sentimos de alguém que partiu. As horas parecem dias, os dias parecem semanas e, de repente, ao olharmos para o calendário, verificamos que passaram longos anos. Manteve-se inalterável a lembrança do perfume, do gesto, do sorriso. O tempo não apaga, mas aconchega a dor. Arranja-lhe um cantinho ao fundo do peito. E, nesse cantinho, a recordação permanece viva, iluminada, até ao fim da nossa vida. De vez em quando, tem de se arranjar mais espaço para que se consigam acomodar outras dores. Desarruma-se tudo, volta-se a mexer em todo o passado que se esconde na recordação de um desgosto vivido, de uma perda sofrida. A morte unifica-nos. Perante ela, sentimo-nos infinitamente pequenos e tudo se relativiza. Que interessam os problemas profissionais? Que importa não podermos ir ao Brasil no fim do ano? O que separa a vida da morte não passa de uma frágil linha que a todo o momento ameaça quebrar-se. Por muito que queiramos arranjar airbags emocionais, face à perda, o único caminho é viver o luto. Entristecemo-nos, choramos, achamos que a vida perdeu todo o sentido. Cada pessoa vive a morte à sua maneira, sendo que a dor não tem, na sua essência, grandes diferenças. A manifestação da dor é que difere. A dor pode ser vivida no silêncio, como algo só nosso que não queiramos partilhar com mais ninguém. Algumas pessoas, perante a notícia da morte de outros (sobretudo quando falamos de alguém muito próximo como filhos ou pais), dizem: “Eu não aguentava”, como se, de algum modo, apontassem o dedo a todos aqueles que perante essas perdas conseguiram arranjar força para continuar a viver. Costumo perguntar-lhes que alternativa teriam, segura de que um ser humano aguenta a maior parte dos sofrimentos, sobrevive às maiores agruras que a vida lhe reserva. Certo é que um dia a ferida se transforma em cicatriz. Aprendemos a conviver com a dor. Voltamos a conseguir sorrir e, com frequência, passamos a dar mais valor às pequenas coisas. Pensamos com carinho nos amigos que nos ajudaram a ultrapassar os momentos difíceis. Espantamo-nos com a frieza de alguns que considerávamos próximos e com a delicadeza de outros com quem nem sequer pensávamos poder contar. A morte tem destas coisas. A realidade dá-nos uma estalada, e das duas, uma: ou nos tornamos mais fortes apesar das cicatrizes emocionais, ou sucumbimos perante ela. Não existe terceira hipótese.

(Carlinha)
O OUTRO LADO DA VIDA....

Um discípulo foi ter com o seu mestre e perguntou:
– Mestre, como posso saber se existe realmente vida depois da morte?
O Mestre olhou para ele e respondeu:
– Vem ter comigo novamente depois do pôr-do-sol.
O discípulo, meio contrariado, esperou algumas horas, ansioso pela resposta.
Logo que o sol se pôs, o voltou à presença do mestre. Assim que o discípulo apareceu, o mestre adiantou-se:
– Percebeste o que aconteceu? O sol morreu…
O discípulo ficou sem perceber nada. Pensou que se tratava de uma brincadeira do mestre.
– Como assim, mestre? – perguntou o discípulo –. O sol não morreu, ele apenas se pôs no horizonte.
O mestre disse:
– Exactamente. O mesmo ocorre com todos nós após a morte. Se confiássemos apenas na nossa visão física, parecer-nos-ia que o sol deixou de existir atrás da montanha. Mas no instante em que ele “morreu” no horizonte para nós, nasceu do outro lado do mundo, e tornou-se visível para outras pessoas. O mesmo princípio rege a nossa alma. Depois da morte do corpo, ela parece desaparecer aos nossos olhos, mas nasce no plano espiritual. A chama do espírito não se apaga, ela apenas passa a brilhar no outro lado da vida.

(Hugo Lapa)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013


Libertango

Tenho pedido à Irmã Morte que me ensine coisas importantes da Vida. Ela sabe-as quase todas. Por motivos diferentes, tenho-me encontrado com a Irmã Morte muitas vezes, até nos tornarmos amigos e confidentes. Para além de tudo o que acontece no mistério imenso daqueles que nos morrem, assombro diante do qual só a minha Fé na Esperança é capaz de articular palavras, fica sempre aquela espécie de sussurro mais prolongado, como uma demorada confidência que a Irmã Morte continua a segredar durante vários dias depois de alguém me morrer. Como se cada despedida tivesse inscrita uma lição que seria insensato não receber. De cada vez que alguém me morre, a Irmã Morte inscreve-me no corpo sabedorias novas da arte de viver, como recados do lado mais profundo da própria Vida dos quais ela é silenciosa e incompreendida portadora. Estes recados são tanto mais densos quanto mais para mim são amáveis aqueles que me morrem. É o Amor que dá tamanho à Morte, como é o Amor que dá tamanho à Vida.

É sempre um dos primeiros sussurros da Irmã Morte, uma sabedoria repetida, esta coisa de nos iludirmos com o tamanho do que temos, podemos e sabemos. No mais íntimo e real de nós mesmos, por baixo de todas as máscaras, existe um irremediável mistério de debilidade, fraqueza, finitude. Levantamos as muralhas espessas dos nossos egoísmos e defendemo-las com toda a agressividade necessária, mas estamos indefesos à brisa suave da inconstância que atravessa essas muralhas pelas mais impensáveis frestas. Somos um quebra-cabeças de debilidade e dependência. Não existimos sem pertencer. E não admitir isto é condenar-se.

Não vivemos sem amor, não há hipótese! É impossível uma criança aguentar-se sem amor. É impossível um velho aguentar-se sem amor. No meio, existe essa coisa às vezes terrível que é a adultez: um adulto pode aprender a viver sem amor. É um drama… O que a criança e o velho não podem, o adulto consegue aprender. É uma ilusão e uma falsa aprendizagem, porque não é senão cobrir-se com uma multidão de véus e rodopiar sobre si mesmo com eles, mas é dramaticamente possível. E entre ir para aqui e ir para ali, bulir de um lado e do outro, parece que está tudo bem. Até um dia… e outro… e outro, em que os véus caem e a solidão desmorona. E é terrível ter de viver entre os escombros de si mesmo.

Mas nada está acabado! Não há impossíveis para a Esperança e para a valentia de se dar de maneiras novas! Mas há coisas que poderíamos aprender com menos sofrimento.

A Irmã Morte encosta sempre o seu rosto ao meu para me dizer ao ouvido a minha radical pobreza. Ser dono é uma ilusão. A tentação de possuir achando que aí encontramos a nossa alegria e segurança é a mentira mais contada. E a mais acreditada. Mas somos donos de quê, afinal?! Dos outros, não somos, que, no limite, nos morrem… E, se os amamos de verdade, já os deixámos ficarem livres de nós mais cedo, já lhes demos espaço para eles serem eles mesmos, diferentes de nós e do que nós gostaríamos que eles fossem. Nada nos despossui mais eficazmente que o Amor verdadeiro, maduro e saudável.

E de nós mesmos e das nossas coisas, não somos mais que donos “q.b.”… tudo está nas nossas mãos por um certo prazo de administração, e mais vale usar o que temos para fazer amigos e dar largas à vida do que para fazer inimigos e engordar o coração. Na matriz mais natural do que somos, estamos feitos para o com-tacto, para o encontro, o toque. O órgão mais extenso do corpo humano é a pele, a vocação mais permanente do ser humano é tocar e ser tocado. Somos feitos de um maravilhoso empréstimo cósmico, dos átomos e moléculas que fazem parte desta evolutiva criação há milhões de anos, a mesma matéria das árvores, de todos os seres vivos, da poeira das estrelas e das luas dos planetas. O Corpo que temos é um resumo do Universo, um observatório espantoso do Milagre da Vida em que estamos mergulhados.
Mas dentro do ser humano este Milagre da Vida habita ainda mais profundamente, com uma intensidade relacional e consciente que não existe nas árvores nem nas montanhas nem na actividade interestelar. O Corpo que temos existe em função do Corpo que formamos. O Corpo que temos é natural; o Corpo que formamos é espiritual. O Corpo que temos é biológico; o Corpo que formamos é relacional. O Corpo que temos é uma composição transitória dos elementos da matéria; o Corpo que formamos é uma construção eterna dos desígnios do amor. O Corpo que temos é Individual; o Corpo que formamos é Pessoal. O Corpo que temos é o nosso elo com a Criação; o Corpo que formamos é o nosso vínculo com o Criador. Na Hora em que, finalmente, acabamos de morrer, o Corpo que temos recomeça o seu processo de composição cósmica, novamente, o processo de integração no âmago mais natural da Criação. Não acredito que haja “restos mortais”! Nada é “restos” numa pessoa, NADA! Nem acredito que o que venha a seguir se chame “decomposição” ou “desintegração”, porque o que realmente acontece é outra coisa… uma maravilhosa composição com toda a terra, uma integração nos dinamismos vitais do universo. (…)

A Irmã Morte tem conversado comigo sempre com voz suave, descalça-se diante do território sagrado do sofrimento, e segreda apenas os recados que traz graciosamente do lado mais profundo da Vida. Por isso é que é tão exigente ouvi-la, porque não faz barulho nem ruído. E com ela tenho aprendido que poucas coisas na vida são mais importantes do que a Sensibilidade, essa arte quase perdida de viver desarmado e exposto. Fizemos dos nossos dias campos de batalha, contra inimigos muitas vezes imaginados, outras vezes inventados e criados assim, e contra esse inimigo de quase toda a gente que é o “tempo”. E no campo de batalha, estar exposto e desarmado é aventura que quase ninguém arrisca…

(…)
A Irmã Morte vira-me sempre do avesso a pirâmide dos valores, e a Sensibilidade torna-se a coisa mais preciosa para a qual fomos feitos, a Atenção, a Vigilância respeitadora, a Iniciativa da Reconciliação, o Atrevimento do Amor e a Leveza da Paz.

Será ainda possível levar-me tão a sério quando estou diante de alguém que me morreu? A Irmã Morte costuma convidar-me a redescobrir a Humildade dentro de mim. A Humildade anda pelas ruas da amargura porque fizemos dela uma atitude servil de escravos. Mas não é nada disso… A Humildade é não colocar no centro da vida a procura do seu próprio interesse. Por isso é que a Humildade nos dá Liberdade, faz-nos a mente e o coração mais ligeiros porque nos livra do peso morto dos nossos medos e egoísmos. Aprender a Humildade é aprender a não mais ser um peso para si próprio. Isso acontece quando deixamos de nos considerar de tal modo vaidosos que achamos que tudo e todos nos devem explicações. Não se levar tão a sério é um dos segredos mais eficazes para crescer na arte de bem viver. A Irmã Morte às vezes parece-me a definitiva risada do imenso Universo sobre os nossos planos de tudo possuir, controlar e manter. A Irmã Morte é a provocação mais radical à Humildade que nos Liberta e Amadurece.

 (Rui Santiago, cssr)