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sábado, 16 de novembro de 2013

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver?

Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar?

Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.

Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

(Miguel Esteves Cardoso, in «Último Volume»)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

«A nossa vida tem de valer a pena, a existência tem de ser cheia de sentido, encontro e alegria. Temos de desautorizar a morte.»

(Rui Santiago)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Os dias da memória e da interrogação


«O escritor Erich Fried escreveu de forma provocatória: “Um cão/que morre/e sabe/que morre/ e pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem.” Na história gigantesca do universo, com 13 700 milhões de anos, sabemos que há ser humano, diferente dos outros animais, quando aparecem rituais funerários: eles revelam a presença de alguém que sabe que é mortal, que põe a questão da morte e do seu para lá.

A morte, aparentemente uma realidade tão simples e evidente – tudo o que vive morre, como diz a palavra portuguesa "nada", do latim res nata (coisa nascida) –, é o enigma e o mistério. Platão colocou aí uma das bases do filosofar, como também Pascal, Schopenhauer, Heidegger, entre muitos outros. Sim, a morte é natural, do ponto de vista biológico. Mas o homem não se reduz a biologia. Tem consciência de si enquanto eu, e, assim, abalado pela morte, protestava Unamuno: "Ai que me roubam o meu eu!" Na morte, o homem é confrontado com o nada e angustia-se. Face a algo de concreto que nos ameaça, temos medo; face ao abismo insondável do nada, o que surge é a angústia.

Perante a morte, as palavras falham. Ninguém sabe o que é morrer, esse passar de vivo a morto, já cá não estar. Ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto, como reflectiu o filósofo Levinas. Dizemos, diante do cadáver do pai, da mãe, do irmão, do filho, da filha, do amigo, da amiga: o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga, está aqui morto, está aqui morta. Mas isso não faz sentido, pois o que falta é precisamente o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga. O que ali está é um resto e o que falta é precisamente o sujeito, alguém. Como se não pode dizer que os levamos ao cemitério, pois ninguém se atreveria a enterrar o pai, a mãe, o amigo, a amiga ou a cremá-los. Também dizemos que vamos visitá-los ao cemitério. Ora, com excepção dos vivos que lá vão, nos cemitérios não há ninguém; apenas lixo biológico, "ossos e podridão", segundo o Evangelho. Pergunta-se então: o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Nos cemitérios, o que há não é senão esta pergunta infinita: o que é o homem, o que é um ser humano?

Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Tabu já não é o sexo, mas a morte. Não se pode dar sinais de luto, mente-se às crianças e da morte pura e simplesmente não se fala ou, pelo menos, é de mau gosto e de mau tom falar dela.

Não se julgue que isso acontece, porque a morte já não é problema. Pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente nos meios não tem resposta nem solução que a única solução é ignorá-la, como se não existisse. Trata-se de uma sociedade centrada na produção e consumo, no ter, no êxito, no cálculo, no espectáculo, no poder. Ora, a morte interrompe toda esta lógica. Perdeu-se o sentido da morte e, consequentemente, o sentido da vida ou, talvez melhor, perdeu-se o sentido da vida e, consequentemente, o sentido da morte. Mas, então, também se perdeu o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a problemática ética na sua urgência da liberdade na definitividade. É o pensamento sadio da morte que, como mostrou Heidegger, obriga à distinção entre existência autêntica e existência inautêntica, entre bem e mal, entre o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. E que dá o horizonte da fraternidade: à beira de morrer, disse H. Marcuse ao amigo Habermas: “Sabes, Jürgen? Agora, sei onde se fundamentam os nossos juízos morais: na compaixão”.

(…)»

(P. Anselmo Borges, in DN)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

«Tudo passa!
No entardecer da vida só o amor permanece...»

Aprender a morrer

É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumulamos uma vida inteira não esteja este: aprender a morrer. A contemporaneidade fez da morte o seu tabu, o mais temido e ocultado, e deixa-nos completamente impreparados para enfrentar a naturalidade com que a vida a abraça. A morte surge como uma interrupção, um interdito de linguagem mais inconveniente do que uma asneira, uma dor para viver às escondidas, uma intromissão com a qual em nenhum momento contámos. Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar. E isso constitui, de facto, uma falta enorme.

Montaigne dizia que não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma expressão da vida. A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões, certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. Colhendo o seguinte: ao recolocar-nos dramaticamente perante o mistério que somos, a morte como que resgata a própria existência. É que podemos levar uma vida inteira sem pensar no que ela é: esta surge-nos como um dado óbvio, esventrado de qualquer interrogação, uma certeza assente, sem mais. E não é assim. A morte pode representar no itinerário pessoal, e nos nossos caminhos entrecruzados e comuns, a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente. A vida não é só este tráfico de verbos activos, esta marcha emparedada e sonâmbula, este vogar entre deve e haver, esta contabilidade no lugar da metafísica A vida não é só isto. A morte amplia-a. Revela-lhe um fundo que não vemos. São, por isso, tão necessários os versos de Rilke: «Senhor, dá a cada um a sua própria morte. / Um morrer que venha dessa vida que reparte por nós amor, sentido e aflição. / Porque nós somos apenas a casca e a folha / A grande morte, que cada um traz em si, / é o fruto à volta do qual tudo gira.»

Um acontecimento editorial deste Outono é a publicação dos escritos de Cicely Saunders, a médica que fundou a primeira unidade de cuidados paliativos, uma das mais fantásticas inovações da saúde no século XX. O livro chama-se "Velai Comigo", tem pouco mais do que setenta páginas e merecia bem ser lido por todos. O que me marcou mais na leitura que fiz foi uma frase repetida continuamente pela autora: «Temos de aprender». Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.

Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.

(José Tolentino Mendonça, in Expresso, 2.11.2013)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O dia de hoje…

«O meu dia começou com um funeral...
Ao ser confrontada com a morte de tão perto, de repente senti-me muito viva. Se aquilo é o pior que me pode acontecer, porquê tantos medos? Receios? Dúvidas e ansiedades?
Dei por mim a pensar que realmente estamos aqui pouquíssimo tempo para não fazermos o que gostamos, estarmos com quem amamos e sermos felizes. Vamos VIVER plenamente!»

(Manuela Gomes)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A morte é um despojamento...

Não queremos morrer, temos medo e angústia. «A morte é um despojamento, por isso se vive com angústia. Estamos agarrados à vida e não queremos ir. Até o mais crente sente que o estão a despojar, que tem de abandonar parte da sua existência, da sua história. São sensações intransferíveis.» (Papa Francisco)
(...)

A vida e a morte lutam corpo a corpo, no sentido biológico, mas sobretudo em relação à forma como se vive e morre.
(...)


(P. Anselmo Borges, in DN, 28 de Setembro de 2013)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O PROCESSO DE LUTO

«A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tão semelhante ao pânico, que têm de ser inventadas maneiras de se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que uma pessoa, se alguma vez se entregar totalmente à dor, será devastada – como que por um maremoto enorme – para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez» (Sanders).
O tempo acaba por ser o maior aliado para ultrapassar a inolvidável perda, permitindo uma recuperação lenta e gradual. Porém, o sobrevivente tem também um papel activo no processo de luto, tendo de efectuar determinadas tarefas de forma a "deixar ir" o ente perdido e seguir em frente com a sua vida. Quando estas tarefas não são realizadas, acaba por se passar a ténue e imprecisa linha que separa o luto normal do luto patológico. Neste último, verifica-se que a severidade dos sintomas do luto, característica de uma fase inicial que se segue à perda, acaba por se prolongar por um período de tempo superior ao habitual.
Para além de ser um processo inevitável, pois todas as pessoas têm de o realizar a fim de se adaptarem à perda, o luto acaba por se repercutir nos vários indivíduos que rodeiam o sobrevivente, mesmo aqueles que não conheciam a pessoa falecida, e principalmente os membros familiares que passam por um mesmo processo, mas nunca de uma forma igual.

O afastamento no momento da morte (as pessoas antigamente morriam em casa e agora, maioritariamente, morrem nos hospitais ou em lares de terceira idade), juntamente com o menor apoio da comunidade numa sociedade cada vez mais individualista, são factores sociais que dificultam enormemente o processo de luto.


O que se sente, pensa e faz face à perda de um ente querido?

Os sentimentos mais comuns no processo de luto são:

* Tristeza: O sentimento mais comummente encontrado no enlutado, muitas vezes manifestando-se através do choro;

* Raiva: Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando na raiz de muitos problemas no processo de sofrimento após a perda. A raiva advém de duas fontes: da sensação de frustração por não haver nada que se pudesse fazer para prevenir a morte e de um tipo de experiência regressiva que ocorre após a perda de alguém próximo (semelhante ao que acontece quando uma criança se perde da mãe e no reencontro a pontapeia e se mostra zangada em vez de se mostrar feliz e ter uma reacção de amor por vê-la, devido à ansiedade e ao pânico sentidos pela criança antes de a mãe a encontrar), em que a pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva que acompanha estes sentimentos de ansiedade.
Formas ineficazes de lidar com a raiva são deslocá-la ou direccioná-la erradamente para outras pessoas, culpabilizando-as pela morte do ente querido, ou virá-la contra o próprio, podendo, no extremo, desenvolver comportamentos suicidas;

* Culpa e autocensura: Normalmente, e de modo particular no início do processo de luto, há um sentimento de culpa por não se ter sido suficientemente bondoso, por não ter levado a pessoa mais cedo para o hospital, etc.
Na maior parte das vezes, a culpa é irracional e irá desaparecer através do teste com a realidade;

* Ansiedade: Pode variar de uma ligeira sensação de insegurança a um forte ataque de pânico e quanto mais intensa e persistente for a ansiedade, mais sugere uma reacção de sofrimento patológica. Surge de duas fontes: do sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele próprio sozinho e de uma sensação aumentada da consciência da mortalidade do próprio;

* Solidão: Sentimento frequentemente expressado pelos sobreviventes, particularmente aqueles que perderam os seus cônjuges e que estavam habituados a uma relação próxima no dia-a-dia;

* Fadiga: Pode, por vezes, ser experimentada como apatia ou indiferença. Um elevado nível de fadiga pode ser surpreendente e angustiante para uma pessoa que é normalmente muito activa;

* Desamparo: Está frequentemente presente na fase inicial da perda;

* Choque: Ocorre mais frequentemente no caso de morte inesperada, mas também pode existir em casos cuja morte era previsível;

 * Anseio: Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de volta, é uma resposta normal à perda; quando diminui, pode ser um sinal de que o sofrimento está a chegar ao fim;

* Emancipação: A libertação pode ser um sentimento positivo após a perda; por exemplo, no caso de uma jovem que perde o seu pai que era um verdadeiro tirano e a oprimia por completo;

* Alívio: É comum, principalmente se a pessoa querida sofria de doença prolongada ou dolorosa; contudo, um sentimento de culpa acompanha normalmente esta sensação de alívio;

* Torpor: Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a perda, sentem-se entorpecidas; é habitual que ocorra no início do processo de sofrimento, logo após tomar conhecimento da morte; pode ser uma reacção saudável bloquear inicialmente as sensações como uma espécie de defesa contra o que de outra forma seria uma dor esmagadora e insuportável.


Sensações físicas geralmente sentidas após a perda:
– Vazio no estômago
– Aperto no peito
– Nó na garganta
– Hipersensibilidade ao barulho
– Sensação de despersonalização (nada parecer real, incluindo o próprio)
– Falta de fôlego, sensação de falta de ar
– Fraqueza muscular
– Falta de energia
– Boca seca

Cognições ou pensamentos habituais após a perda:
▪ Descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a notícia)
▪ Confusão (pensamento confuso, não conseguindo ordenar os pensamentos; dificuldade de concentração ou esquecimento de coisas)
▪ Preocupação (obsessão com pensamentos acerca do falecido)
▪ Sensação de presença (contraparte cognitiva do sentimento de anseio)
▪ Alucinações (visuais e auditivas; são uma experiência frequente nos enlutados; são normalmente experiências ilusórias passageiras, que ocorrem, por norma, após poucas semanas da perda e não costumam provocar uma experiência de sofrimento mais complicada ou difícil)

Comportamentos usualmente manifestados após a perda:
Ÿ Distúrbios do sono (insónias)
Ÿ Alterações do apetite (normalmente há uma redução, mas também pode haver um aumento do apetite)
Ÿ Comportamentos de distracção ("andar aéreo")
Ÿ Isolamento social
Ÿ Sonhos com a pessoa falecida
Ÿ Evitar lembranças da pessoa falecida
Ÿ Procurar e chamar pelo ente perdido
Ÿ Suspirar
Ÿ Hiperactividade, agitação
Ÿ Chorar
Ÿ Visitar sítios ou transportar consigo objectos que lembrem a pessoa perdida
Ÿ Guardar objectos que pertenciam à pessoa falecida


As 4 tarefas essenciais do processo de luto

Após a perda de alguém que nos é querido, existe uma série de tarefas de luto que têm de ser concretizadas para que se restabeleça o equilíbrio e para o processo de luto ficar completo. Desta forma, a adaptação à perda envolve quatro tarefas básicas:
1. Aceitar a realidade da perda
2. Trabalhar a dor advinda da perda
3. Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
4. Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida
É essencial que o enlutado efectue estas tarefas antes de o processo de luto poder ser completado. Uma vez que o luto é um processo e não um estado, estas tarefas requerem esforço e, tal como uma doença pode não ficar totalmente curada, também o luto pode ficar incompleto em algumas pessoas.

1. Aceitar a realidade da perda
Quando alguém morre, mesmo sendo uma morte previsível, há sempre um sentimento de que tal não aconteceu. Desta forma, a primeira tarefa do sofrimento é apercebermo-nos da realidade de que a pessoa morreu e não irá voltar. O comportamento de busca relaciona-se directamente com a realização desta tarefa, consistindo, por exemplo, em chamar pela pessoa perdida ou enganar-se na identificação de pessoas, confundindo-as com a pessoa falecida.
O permanecer nesta tarefa pode dever-se a não acreditar na perda através de um determinado tipo de negação:
- Factos da perda;
- Significado da perda;
- Irreversibilidade da perda.

Negar os factos da perda pode variar em grau desde uma ligeira distorção até um delírio em larga escala. Um exemplo bizarro de negação através de delírio é a raridade dos casos em que o enlutado mantém o corpo do falecido em casa durante um determinado número de dias, antes de notificar alguém acerca da morte. Estas pessoas são, na grande maioria, psicóticas ou sofrem de excentricidade ou isolamento. O que acontece mais frequentemente é a pessoa passar por uma "mumificação", isto é, reter os bens materiais do falecido e mantê-los tal como estavam para quando o falecido "regressar".

Outra forma de as pessoas se protegerem da realidade é negarem o significado da perda, permitindo que a perda aparente ser menos significativa do que na realidade foi. Exemplos comuns são afirmações como "Ele não era um bom pai" ou "Não éramos assim tão chegados" e deitar os pertences que lembram o falecido fora, actuando de forma oposta à mumificação, sendo a intenção minimizar a perda. O esquecimento selectivo é outra forma de negar a realidade da perda, sendo o esquecimento de bons momentos ou da cara do falecido alguns exemplos.

Há pessoas que impedem a finalização desta tarefa negando que a morte é irreversível. Uma estratégia utilizada para negar a finalidade da morte é o espiritismo. A esperança de reunião com a pessoa morta é o sentimento normal, principalmente nos primeiros dias e semanas após a perda.

Chegar a uma aceitação da perda leva tempo, pois envolve não só uma aceitação intelectual, mas também emocional, sendo esta última mais morosa. A crença e a descrença alternam enquanto se permanece nesta tarefa. Apesar de levar inevitavelmente tempo, os rituais tradicionais, como o funeral, ajudam muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.


2. Trabalhar a dor da perda
Muitas pessoas experimentam dor física, bem como dor emocional e comportamental, associadas à perda. Uma vez que a pessoa em luto tem de passar pela dor causada pela perda, de modo a fazer o trabalho do sofrimento, então tudo o que permitir ao enlutado evitar ou suprimir essa dor irá muito provavelmente prolongar o processo de luto.
A negação desta segunda tarefa, a de trabalhar através da dor, é a de não sentir. As pessoas podem boicotar esta tarefa da várias maneiras, sendo a mais comum cortar com os sentimentos e negar a dor que está presente. Outras formas possíveis são procedimentos para parar o pensamento, idealizar o falecido, evitar coisas que lembrem o falecido e utilizar álcool ou estupefacientes.
Certas pessoas não compreendem a necessidade de experimentarem a dor do sofrimento e tentam a cura geográfica, ou seja, viajam de sítio para sítio, tentando encontrar algum alívio das suas emoções, em vez de se permitirem satisfazer a dor, senti-la e saberem que um dia ela passará.
Mais cedo ou mais tarde, a maioria dos indivíduos que evita o sofrimento consciente, acaba por entrar em colapso, normalmente sob alguma forma de depressão.


3. Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados para diferentes pessoas, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os vários papéis que ela desempenhava. Por exemplo, para muitas viúvas, o tempo que leva a aperceberem-se de como é viver sem os seus cônjuges é de cerca de três meses após a perda. Adicionalmente, em qualquer processo de luto, é muito raro saber-se exactamente o que é que se perdeu. No caso de uma viúva, a perda de um marido pode significar a perda de um parceiro sexual, um companheiro, um contabilista, um jardineiro, etc., dependendo dos papéis que eram usualmente desempenhados pelo seu marido.

A estratégia de coping para redefinir a perda de tal forma que pode recair para o benefício do sobrevivente é geralmente parte da conclusão bem sucedida desta tarefa.
Por exemplo, um homem que perde a sua mulher, que tinha como um dos vários papéis cuidar dos filhos, passa a resolver as questões relacionadas com os seus filhos, o que lhe dá um enorme prazer e percebe que isso não teria acontecido se a sua mulher não tivesse falecido.

Para as pessoas que definem a sua identidade através das relações e atenção que têm com os outros, o processo de luto significa não só a perda de um ente querido, mas também um sentimento de perda do self (o seu eu).
Outra área de ajustamento diz respeito ao sentido que a pessoa tem do mundo, pois a perda pode pôr em causa várias crenças e desafiar valores fundamentais.

Existem três áreas de ajustamento que se tem de fazer depois de perder alguém que nos é próximo: ajustamentos externos (funcionamento diário no mundo), ajustamentos internos (sentido do self) e ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo).

Ficar preso nesta tarefa significa que não há uma adaptação à perda. As pessoas trabalham contra elas mesmas através da promoção do seu próprio desamparo. Em acréscimo, não desenvolvem as competências de que precisam para lidar com a perda ou isolam-se do mundo e não enfrentam as exigências que as rodeiam.


4. Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida
Uma pessoa nunca perde as memórias de uma relação significativa. O processo de luto termina quando o enlutado deixar de ter uma necessidade de reactivar a representação do falecido com uma intensidade exagerada no quotidiano.

No caso da morte de um parceiro, a disposição para entrar em novas relações está directamente dependente de encontrar o espaço adequado para o cônjuge na vida psicológica do enlutado, um espaço que seja importante, mas que deixe espaço para outros.

Uma maneira de não completar esta tarefa é não amar. A pessoa agarra-se ao vínculo que tem com o passado, em vez de seguir em frente e formar novas vinculações. Algumas pessoas sentem a perda de uma forma tão dolorosa que fazem um pacto com elas mesmas de nunca mais amarem.

Para muitas pessoas, esta é a tarefa mais difícil de alcançar, ficando-se por vezes preso nela e só tomando consciência disso muito tempo depois, verificando que as suas vidas estagnaram após a perda. A sobre-idealização da pessoa falecida, um sentimento de deslealdade ou o medo catastrófico de uma nova perda podem bloquear a formação de novas vinculações e compromissos. Não obstante, esta tarefa pode ser alcançada e a pessoa percebe que pode voltar a amar sem deixar de amar a pessoa que perdeu.



Quando termina o processo de luto?

O processo de luto termina quando as tarefas supra descritas são completadas. Quanto à duração do processo, não existe uma resposta conclusiva, sendo impossível definir uma data precisa. No entanto, quando se perde uma relação próxima é muito improvável levar menos de um ano, e para muitos casos dois anos ou até mais não é muito tempo. O processo de sofrimento é muito variável, levando normalmente muito mais tempo do que aquele que as próprias pessoas esperam. Para além disso, cada nova estação, feriado ou férias e aniversário são prováveis de reevocar a perda. Assim, verifica-se que o luto não é um processo que progride de forma linear, podendo reaparecer para ser novamente trabalhado.
As regressões são inevitáveis num processo de luto. Até quando o enlutado já passou claramente para uma fase seguinte, é possível que regresse a padrões anteriores durante alturas de maior stress ou de extrema fadiga. Esta experiência é normalmente assustadora, pois a pessoa pode temer uma regressão permanente. Não obstante, a regressão passa, regra geral, assim que a situação desencadeante do stress é debelada ou quando a pessoa tiver descansado o suficiente.

Um sinal de uma reacção de sofrimento finalizada é quando a pessoa é capaz de pensar no falecido sem dor e quando consegue reinvestir as suas emoções na vida e nos vivos.

O processo de luto tem 5 fases:
1) Choque;
2) Consciência da perda;
3) Conservação – retirada;
4) Cura;
5) Renovação.
Cada uma das forças psicológicas que operam durante o processo de luto tem um correspondente biológico que determina o bem-estar físico do indivíduo.

Desta forma, na primeira fase, em que ocorre o choque, o enlutado movimenta-se num estado confuso de descrença e está num intenso estado de alarme. As emanações de adrenalina proporcionam a resistência física necessária para levar a cabo os requerimentos ritualizados que se seguem à perda. Esta fase proporciona também um torpor, ou seja, uma espécie de anestesia dos sentimentos, que protege o enlutado de experimentar a dor intensa que se vai seguir.

Na fase seguinte, há consciência da perda, ou seja, à medida que o torpor começa a desaparecer, o enlutado confronta-se com a perda que ocorreu. A novocaína (substância produzida pelo corpo) abateu e com ela o amortecimento temporário desvanece. À medida que este estado "dormente" face à perda desaparece, o enlutado tem de enfrentar a agonia física e mental sem o apoio adicional de um agente biológico de entorpecimento. A ansiedade de separação torna-se predominante enquanto o enlutado se prepara para o que sente como um esgotamento nervoso. Os sentimentos de perigo predominam e parece não haver um lugar seguro.

Na fase da conservação – retirada, a pessoa acaba por ter de se retirar para salvar a pouca energia que lhe resta após as tremendas emanações da fase anterior. Esta fase parece-se muito com a depressão, podendo por isso assustar o enlutado. Uma grande fadiga oprime o enlutado e ele sente dificuldade em executar até a mais simples das tarefas. Apesar de este período aparentar ser debilitante, ele também tem um valor libertador. Neste período de nojo (pesar), longe dos outros, o sobrevivente tem a oportunidade de fazer o trabalho de luto necessário, ou seja, a ruminação e a preocupação com o falecido. O enlutado percebe que não há quantidade suficiente de anseio ou concentração que possam trazer de volta a pessoa perdida.
Desta forma, ele começa a perceber que são necessárias novas abordagens, novas relações estabelecidas e uma nova vida construída. Numa análise final, o trabalho do luto depende da aceitação da perda e das consequentes mudanças na vida do enlutado. A força começa a regressar, alcançando-se um ponto de viragem. Este ponto de viragem é marcado pela decisão de seguir em frente e deixar ir o passado ou de permanecer no estado actual das coisas, comportando-se como se o falecido estivesse apenas temporariamente fora, podendo regressar um dia. Há uma terceira escolha que é raramente discutida como alternativa que é a decisão, normalmente inconsciente, de desistir, de morrer.

A quarta fase, a cura, representa esse ponto de viragem. O sobrevivente junta forças que lhe dão o ímpeto para seguir em frente com uma nova vida. Há uma mudança gradual de atitude e o ganho de controlo vem aos poucos. Do mesmo modo, o regresso da confiança acontece vagarosamente e de uma forma irregular. Esta fase é também um período de perdoar e esquecer. Perdoar-se a si mesmo pode ser uma tarefa difícil, ao mesmo tempo que a pessoa tenta lidar com a auto-eliminação da culpa, vergonha e raiva por ter sido deixada sozinha. Por outro lado, esquecer implica "deixar ir", não sugerindo que as memórias serão apagadas, mas sim que os pensamentos e sentimentos serão guardados apropriadamente no "coração" da pessoa. A motivação para seguir em frente, apesar de possíveis desilusões e vários inícios e paragens desencorajantes, faz a diferença.

Na última fase, a renovação, a dor diminui em grande parte. Obviamente, os aniversários e outras datas especiais irão continuar a ser difíceis, porém o enlutado não é a mesma pessoa que era anteriormente à perda. Um sentimento de competência, decorrente da aceitação de responsabilidade para o próprio, dá a força necessária para tentar novas coisas, encontrar novos amigos e começar a criar um estilo de vida em que as necessidades pessoais são satisfeitas. Esta fase é tão longa e árdua como as anteriores, talvez ainda mais morosa, e normalmente mais difícil.



Variantes de Luto Complicado
O termo “luto complicado” é usado quando determinados factores perturbam o processo de luto normal, factores esses que resultam de uma variedade de circunstâncias, desde problemas de personalidade pré-mórbidos até stresses situacionais. Estas variáveis fazem com que o luto seja mais severo e duradouro do que seria de esperar ou, pelo contrário, fazem com que o enlutado evite ou nem sequer reconheça a sua dor, o que impede que ela se possa resolver.

Sete variações ou síndromes de luto complicado:
1) Luto ausente;
2) Luto atrasado (o enlutado não demonstra reacções de luto durante semanas ou mais tempo, podendo transportar consigo uma dor não resolvida que pode emergir mais tarde como "reacções distorcidas" – por exemplo, hiperactividade sem um sentimento de perda, adquirir sintomas que pertenciam à última doença do falecido…);
3) Luto inibido;
4) Luto distorcido;
5) Luto conflituoso (aparece após a perda de uma relação altamente perturbada e ambivalente; habitualmente, surge uma complexidade de emoções após a morte, incluindo alívio, mas seguido de culpa e remorsos por saber que a relação nunca foi boa e não há oportunidade para a mudar);
6) Luto inesperado;
7) Luto crónico (a resposta de luto inicial é apropriada, mas a intensidade das reacções continuam sem diminuir; como resultado, a pessoa mantém-se num profundo e doloroso luto como forma de vida).

Apesar de existirem diversas variações de luto, os lutos atrasado, distorcido e crónico aparentam ser os principais a separar o luto complicado de um luto normal. A questão de o resultado de um processo de luto constituir um bom ou mau resultado não é consensual. Uma vez que os padrões de reacções normais de luto não são ainda claramente compreendidos, continua a ser difícil determinar critérios de reacções anormais.



O processo de luto dentro do sistema familiar
Em todas as culturas, as crenças acerca do luto, as práticas e os rituais facilitam a integração da morte e a transformação dos sobreviventes. Quando o sofrimento perante a perda de um pai, cônjuge, filho, irmão ou outro familiar importante não é reconhecido e cuidado, pode precipitar reacções fortes e nocivas noutras relações, desde um distanciamento marital e dissolução a uma substituição precipitada, relações extraconjugais e até incesto.

O acompanhamento que se dá a quem morre – muito mais do que o lugar – marca uma grande diferença. Muitas vezes, os familiares não sabem exactamente em que circunstâncias e a que horas ocorreu a morte, porque não estavam por perto. Não sabem como foi nem sabem se a pessoa morreu só ou acompanhada. Neste sentido, a morte das pessoas queridas é um buraco escuro porque morrem longe e muitos ficam afectados com esta morte, com esta perda, porque não sabem como é que foi.

Há um crescente distanciamento do momento crucial em que a pessoa querida morre, havendo um progressivo evitamento do confronto directo com essa realidade.
Desta forma, a integração da morte na vida torna-se mais complicada e difícil. Ariès reforça esta ideia quando coloca a seguinte pergunta: «Será que uma grande parte da patologia social de hoje não tem a sua fonte na evacuação da morte da vida quotidiana e na interdição do luto e do direito de chorar os seus mortos?»
O próprio afastamento das crianças do momento da morte e dos rituais que lhe seguem trás, ao contrário do que intuitivamente se pensa, mais problemas para a criança se adaptar à perda, sendo aconselhável que todos os familiares, sem excepção, participem neste processo, fomentando a partilha e coesão como forma de apoio, mas respeitando o espaço individual de cada um.

Do ponto de vista sistémico, a morte na família envolve múltiplas perdas: a perda da pessoa; a perda de papéis e de relações; a perda da unidade familiar intacta e a perda de esperanças e sonhos por tudo o que poderia ter sido.


Adaptação da família à perda
A morte coloca desafios adaptativos partilhados e mudanças nas definições que a família tem da sua identidade e objectivos. A capacidade de aceitar a perda está no cerne de todas as competências nos sistemas familiares saudáveis. Pelo contrário, as famílias muito disfuncionais demonstram os padrões menos adaptativos relativamente ao lidar com as inevitáveis perdas, agarrando-se conjuntamente à fantasia e à negação para ofuscar a realidade e para insistir na intemporalidade e perpetuação dos laços nunca desfeitos.

As perdas significativas ou traumáticas podem nunca ser totalmente resolvidas. Em acréscimo, a adaptação não é equivalente a uma resolução no sentido de ultrapassar completamente e de uma vez por todas a perda.
Há, no entanto, desafios adaptativos cruciais na família que, se não forem ultrapassados, deixam os familiares vulneráveis à disfunção e aumentam o risco da dissolução da família. Existem, assim, duas tarefas principais que tendem a promover a adaptação imediata e a longo prazo dos familiares e a fortalecer a família como uma unidade funcional: 1) A aceitação partilhada da realidade da morte e experiência partilhada da perda; e 2) A reorganização do sistema familiar e reinvestimento noutras relações e no seguimento da vida.

1. Aceitação partilhada da realidade da morte e experiência partilhada da perda

Todos os membros familiares, cada um à sua maneira, têm de se confrontar com a realidade de uma morte na família. É importante haver um contacto directo com a realidade da morte, particularmente a inclusão de membros familiares vulneráveis. Por exemplo, no caso de um familiar que está a morrer, devem ser-lhe feitas visitas sempre que possível e arranjar formas de incluir as crianças. As tentativas bem intencionadas de proteger as crianças ou os familiares mais vulneráveis do potencial transtorno da exposição à morte isolam-nos da experiência partilhada e arriscam-se a impedir o seu processo de sofrimento pela perda.


Os rituais funerários e as visitas à campa servem uma função vital de providenciar um confronto directo com a realidade da morte e a oportunidade para prestar as últimas considerações, para partilhar o sofrimento e para receber apoio na rede de suporte da comunidade dos sobreviventes. Partilhar a experiência da perda, de qualquer maneira que seja possível à família, é crucial para a adaptação bem sucedida.

A comunicação familiar é vital durante o percurso de adaptação à perda. Para além disso, um ambiente de confiança, respostas empáticas e tolerância a diversas reacções é essencial. A tolerância é, assim, necessária não só para diferentes respostas dentro da mesma família, como também para a probabilidade de os familiares terem diferentes estilos de coping (estratégias de confronto), estarem em diferentes fases uns dos outros e poderem ter experiências únicas no significado da relação perdida.

Os sentimentos intoleráveis ou inaceitáveis podem ser delegados e expressos de uma forma fragmentada pelos vários familiares. Como exemplificação, um pode transportar toda a zanga pela família, enquanto outro familiar está em contacto apenas com a tristeza, um demonstra alívio e outro está entorpecido. Nestes casos, torna-se necessário construir resiliência na família através da reparação da fragmentação e da promoção de uma rede mais coesa para o apoio e cura mútuos.


2. Reorganização do sistema familiar e reinvestimento noutras relações e no seguimento da vida
 A morte de um familiar pode despedaçar o equilíbrio no seio da família e os padrões de interacção estabelecidos. O processo de recuperação envolve um realinhamento das relações e uma redistribuição dos papéis necessários para compensar a perda, amortecer os stresses transaccionais e seguir com a vida familiar para a frente.

As crianças podem ser mais prejudicadas pela incapacidade da família em proporcionar estrutura, estabilidade e cuidados de protecção do que pela perda em si. Desta forma, promover a coesão e uma reorganização flexível no sistema familiar é essencial para a re-estabilidade e resiliência. Para tal, é necessário tomar em conta uma série de variáveis que influenciam a adaptação da família à perda, entre as quais sobressaem:
w Situação da perda (morte repentina ou morte por doença prolongada, perda ambígua, morte violenta, suicídio);
w Rede familiar e social (coesão familiar e diferenciação dos familiares, flexibilidade do sistema familiar, comunicação aberta versus secretismo, disponibilidade de recursos da família alargada – sociais e económicos –, papel e funcionamentos anteriores no sistema familiar, relações conflituosas ou afastamentos na altura da morte);
w Contexto sócio-cultural da morte (crenças étnicas, religiosas e filosóficas);
w Contexto sociopolítico e histórico da perda;
w Altura da perda no ciclo de vida da família (extemporaneidade da perda, co-ocorrência de outras perdas, stresses ou mudanças do ciclo de vida, história de perdas traumáticas e luto não resolvido).

 (Adaptado de Rita Melo, investigadora)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Em homenagem à minha tia falecida no passado dia 21 de Setembro:



Eternamente.
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

(M. S. Tavares)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Meditando o Tempo que Passa...

Não vivemos simplesmente. Também morremos. A existência tem estas duas dinâmicas sempre presentes. E morrer não é somente um acontecimento isolado no “fim” da vida. O que chamamos de “morte” não é senão o último momento do processo de morrer que acompanha a marcha da vida.

Aquilo a que chamamos “morte” como se fosse um acontecimento fechado em si próprio, é o último momento de uma dinâmica que acompanhou toda a nossa história. A morte, assim entendida, é o acontecimento pelo qual, finalmente, deixamos de morrer!

O morrer está dentro do viver, faz parte da dinâmica da existência, pertence ao seu mais íntimo e intocável. Estamos em permanente processo de morrer. Nascer é tornar-se moribundo.

Nós temos o privilégio de podermos olhar de frente a nossa morte desta maneira tão profundamente humana. Olhar de frente a morte não significa enfrentarmos com angústia o nosso fim, mas percebermos que dentro de nós existe um processo de morrer permanente que é como que o lado de dentro ou o lado avesso de viver. Temos o privilégio de podermos conhecer e assumir esta experiência da nossa debilidade, fraqueza, contingência, caducidade… numa palavra: mortalidade.

Então, a vida pede com urgência um Sentido, para se libertar do absurdo de morrer! Quando entendemos a morte desta maneira, como processo de morrer, percebemos também que morrer se torna um convite muito grande a ter um Sentido para viver. O Sentido de viver tem sempre a ver com experiências de abertura, liberdade e doação. Por isso, o Sentido de viver está quase irremediavelmente associado à descoberta de pessoas e relações…

Abrir-se e dar-se é a única maneira de uma pessoa não desaparecer morta em si própria. O morrer humano, como experiência de caducidade, é um apelo fortíssimo à libertação de si próprio, à abertura aos outros, à oblatividade e autodoação. Eis o privilégio e a responsabilidade de sermos pessoas! Não podemos deixar que o tempo e a natureza nos estejam permanentemente a fazer morrer em vão.
(…)


Não somos uma fatalidade biológica!
O morrer humano é muito mais que uma fatalidade biológica. É um processo de realização pessoal, uma dinâmica de limitação e carência que nos apela à abertura e à oblatividade.


Mas, mesmo assim… porque é que esta experiência pessoal de debilidade da vida, da caducidade da existência do tempo presente, da limitação e da dependência há-de ser um apelo de abertura e doação?! Porquê?!

Porque a consciência disto nos coloca cara-a-cara com a certeza absoluta de que o impulso da autoconservação redundará em fracasso! Estamos a morrer, não vale a pena guardarmo-nos! É um processo irreversível. O Ser Humano não se possui a si próprio pelo caminho da autoconservação. Por aqui, morre enterrado em si mesmo! Só nos realizamos na medida em que nos abrimos e nos damos.
(…)

(Rui Santigo, cssr)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dicas para um luto sadio

É útil, ao longo do processo de luto, prestar atenção a eventuais indicadores de patologia psiquiátrica e, por conseguinte, da necessidade de ajuda profissional, tais como: não ser capaz de falar da pessoa que morreu, incapacidade para se separar das coisas dela, reacções emocionais de intensidade desmedida, afastamento de todos aqueles que rodeavam o falecido, compulsão para o imitar, sintomas físicos semelhantes aos que lhe provocaram a morte, impulsos destrutivos, tristeza excessiva, consumo de álcool, drogas ou outras substâncias…

C.S. Lewis e José Carlos Bermejo escreveram livros que ajudam a compreender e a viver o luto.
A primeira afirma: «A morte de uma pessoa amada é uma amputação» (LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor – Um luto em observação. São Paulo: Vida, 2007, p. 12).
O segundo explica: A dor dessa amputação, no entanto, não precisa de ser negada, suavizada nem reduzida «a uma experiência obscura e sem saída», mas «soar ao ritmo da esperança» (BERMEJO, José Carlos. Estou de luto – Reconhecer a dor para recuperar a esperança. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 7).
E acrescenta: «Evitar conscientemente uma dor conduz-nos, mais cedo ou mais tarde, a algum tipo de "colapso emocional"» (BERMEJO, p. 66).


Para viver o luto de forma sadia:
Bermejo adianta, na página 13 do seu livro: «Não é exactamente a razão que mais nos ajuda nos momentos de dor pela perda de um ente querido, embora às vezes pareça que desejamos isso e pretendamos fazer-nos estóicos e tentemos consolar-nos com argumentos em vez de afectos.»
E na página 133 aclara: «O afecto sincero, comunicado de modo profundo com os nossos sentimentos, muito mais do que com a razão, será o caminho mais adequado para acompanhar quem vive a perda de um ente querido e elabora a dor.»
Algumas acções de afecto que se apresentam terapêuticas ou consoladoras são: o choro, a capacidade de escuta, o abraço e o toque físico, a recordação, o pedido de ajuda.
«Chorar tem um efeito benéfico de libertação: relaxa, desafoga, produz descanso e tranquilidade de espírito, promove a reconciliação consigo mesmo e com os outros, repara, restabelece a ordem e o equilíbrio com o passado para permitir viver o presente de modo sereno, abranda, deixa visível a fragilidade, ou, se se preferir, a fortaleza dos sentimentos e do apreço pelo ente querido. E abrandar-se é humanizar-se» (BERMEJO, p. 51, 52).
«As mãos, no contacto corporal, têm muito poder quando nelas está posto o coração» (BERMEJO, p. 56).

 No que se refere ao acto de ouvir, há que ter em conta dois aspectos:
 – Relatar os últimos acontecimentos pode ser um alívio, desde que não seja repetitivo e, então, passa a tornar-se um fardo (BERMEJO, p. 58);
– Ouvir tudo sem emitir qualquer espécie de julgamentos. «Por isso estou a aprender como é importante ouvir e ter alguém que ouça sem julgar. Sim, sem julgar nada, nada» (BERMEJO, p. 60).

Do mesmo modo, na recordação, que é terapêutica, é preciso cuidado para não cair na obsessão (BERMEJO, p. 62). Bermejo (p. 162) sublinha que há «datas e situações em que a recordação se torna particularmente viva»: Natal, Ano Novo, acontecimentos familiares de relevo.
Nessas ocasiões, algumas pessoas:
Consideram que recordar «pode estragar a festa»;
«Não se permitem expressar uma recordação em público, precisamente para não serem consideradas "desmancha-prazeres", simulando alegria quando na realidade estão a sofrer»;
«Não se permitem celebrar, pois parece uma ofensa à pessoa querida que não está presente».
«No entanto, a verdadeira celebração é aquela capaz de dar espaço – especialmente no coração – às pessoas que não estão, mas que se desejaria que estivessem» (BERMEJO, p. 163).

Bermejo alude, neste contexto, à estratégia de fazer os mortos verbalmente presentes, que pode ser dolorosa por um lado, porém benéfica do ponto de vista emocional (p. 163). E ilustra com este depoimento: «Pouco a pouco estamos a aprender a viver sem ti; e embora não seja fácil, porque tu preenchias tudo, percebemos que é mentira que a morte rouba a vida, pois a vida é como uma tocha que passa de mão em mão. E tu estarás sempre connosco, a ocupar um lugar muito especial no nosso coração» (BERMEJO, p. 163).


Estas acções terapêuticas “descobrem a careca” ao mito de que “o tempo cura tudo”. O tempo é somente um requisito, não um factor terapêutico. E pode, se não houver ajuda adequada, transformar-se num grande inimigo.
«A medicina do tempo, considerada em si mesma, não é segura. O tempo é neutro. O que ajuda é aquilo que cada um faz com o tempo» (BERMEJO, p. 167).

A idealização da pessoa falecida constitui outro perigo no processo de luto. Num dos diversos testemunhos do livro de Lewis aparece: «Se eu der rédea solta a esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente» (LEWIS, p. 30).
«Qualquer realidade é iconoclasta. A pessoa amada na Terra, nesta vida, não cessa de triunfar sobre a simples ideia que fazemos dela. E queremos que seja assim; queremo-la com todas as resistências, todas as falas, toda a sua imprevisibilidade, isto é, na sua realidade franca e independente. E é isso, e não outra imagem ou lembrança qualquer, que devemos amar mesmo depois de ela morrer» (LEWIS, p. 83).

A idealização patológica da pessoa falecida é passível de gerar sentimentos de culpa que impedem um luto sadio.
«O processo de elaboração do luto significa reinstalar dentro de si mesmo os entes queridos; dar-lhes uma presença interna na qual o ser perdido não seja um perseguidor interior que gere culpa, e sim uma boa recordação» (BERMEJO, p. 13).
«Na realidade, não se deve esquecer a pessoa amada, nem mantê-la no mesmo lugar vital. O objectivo não é esse, mas sim reestruturar o tipo de vínculo e a forma de se relacionar com ela, tomando uma consciência realista daquilo a que se deve realmente renunciar (a presença física e todas as suas implicações) e ao que não (o significado no coração e na própria história)» (BERMEJO, p. 88).
«Conservar o quarto do morto intacto, como uma espécie de "museu" em sua honra, pode ser um indicador de complicações no luto, de negação ou de culpa, por associar a ideia de retirar as coisas deste a uma sensação de "matá-lo" no coração, ou manifestar diante de si mesmo, diante do falecido e dos outros uma espécie de "indiferença" relativamente à sua morte» (BERMEJO, p. 103).
Nesta perspectiva, ter ajuda para remover as coisas da pessoa falecida é muito importante.

A redescoberta pessoal é algo que brota da esperança que emerge no meio da tormenta de tantas emoções que acometem o enlutado. Advém, geralmente, do crescimento interior que a dor da perda incute e da redescoberta da própria fé. Uma fé nova, sólida como nunca.
«A verdadeira consolação da religião não é cor-de-rosa nem cómoda, mas con-fortadora, no sentido verdadeiro da palavra: com força» (LEWIS, p. 14).
«Nunca temos consciência do quanto efectivamente acreditamos em alguma coisa enquanto a verdade ou a falsidade dessa coisa não se torna uma questão de vida ou morte para nós» (LEWIS, p. 45).
«Na fragilidade experimentada no luto se mostra a fortaleza do amor que unia as pessoas agora separadas pela morte» (BERMEJO, p. 48).

A esperança – de enfrentar a dor, aprender com ela e transcender o que vemos e sentimos – só é possível se o luto for vivido.
«Quem, por ocasião do luto, não aprende a lição, torna-se mais apático. Quem aprende com ele, humaniza-se» (BERMEJO, p. 149).
«A esperança faz com que o presente seja vivido em tensão com o futuro e que se antecipe o sabor do esperado, mas sem o esgotar. A esperança tem a ver com a confiança, não com o optimismo superficial ou com a certeza absoluta. Melhor dizendo: é irmã da insegurança, e do medo, mas convive com a coragem, a paciência, a integridade e a constância. Esperar é aguardar com paciência» (BERMEJO, p. 125).
«Viver a própria morte consiste também em elaborar de forma sadia o luto antecipador, em fazer da experiência das perdas uma oportunidade para procurar sentido nas relações interpessoais e nos valores que podem qualificar a própria perda» (BERMEJO, p. 154).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

«Às vezes, quando sentimos a falta de alguém, parece que o mundo inteiro está vazio de gente.»

(Lamartine)

Alguns mitos sobre o luto

(que dificultam muito uma compreensão clara a respeito de uma experiência tão humana e universal)

Luto e pesar são a mesma coisa.
É falso. O pesar é um complexo de pensamentos e sentimentos relacionados com a perda, que são vividos internamente. Por outras palavras, é o significado interno dado à experiência do luto.
O luto é o pesar público, a expressão partilhada desses pensamentos e sentimentos com as pessoas que nos cercam. Chorar, falar sobre a pessoa que morreu, celebrar datas especiais, são exemplos de luto. Ainda que esta expressão aconteça sem a presença de outras pessoas, pode ser considerada como uma forma saudável de luto.

A vivência da perda e do luto progride de acordo com fases previsíveis e sequenciadas.
É igualmente falso. Não é possível falar com precisão dessa sequência, embora exista a necessidade de compreender o processo e de tentar controlá-lo. A noção de fases pode, eventualmente, ajudar as pessoas a encontrarem sentido para a sua experiência de luto, mas é impossível substituir o medo e a sensação de falta de sentido, naturais num processo de luto, pelas falsas certezas de que os outros viveriam essa experiência passando exactamente pelas mesmas fases.
É frequente a pessoa enlutada encontrar outras, na mesma situação, que adoptaram um sistema de crenças rígido acerca do que deve ser experimentado ao longo do luto. Essas crenças são passíveis de afectar profundamente o processo individual natural. Podem encontrar-se respostas de desorganização, medo, culpa, mas também podem não se encontrar. É expectável que a regressão possa ou não ocorrer, ou sobrepor-se a qualquer outra das respostas. As emoções são susceptíveis de se seguirem umas às outras com intervalos curtos ou aparecerem em simultâneo duas ou mais emoções.
Cada um fica enlutado à sua maneira, não existindo formas melhores ou piores, nem, muito menos, a imposição de uma sequência rígida como norma do processo. O luto é uma experiência pessoal e única!

Devemos sair do luto em vez de o enfrentar.
Muitas vezes, espalha-se a ideia errada de que o objectivo de quem sofre uma perda é superar o luto o quanto antes.
A sociedade ocidental aconselha-nos (quando não nos obriga!) a abandonar prematuramente a experiência do luto. Por conseguinte, ou o enlutado vive o seu processo isoladamente, ou se força a abandoná-lo antes de o ter completado. Amigos e familiares, bem-intencionados mas desinformados, tentam fazer com que ele desenvolva autocontrolo, entendendo que essa é a resposta adequada, tornando muito difícil para o enlutado enfrentar esta mensagem poderosa, que encoraja a repressão emocional.
Existe, a nível cultural, uma grande impaciência relativamente ao pesar e ao desejo de sair rapidamente da experiência do luto. Contudo, esta mensagem do «Tens de ser forte! Não te deixes abater!», tendo como pano de fundo uma enorme pressão para voltar à vida normal, rotula de fracos e malucos os que continuam a expressar tristeza mais prolongadamente.
O luto passa, deste modo, a ser visto como algo a ser evitado e não como uma coisa que tem de ser vivida. A pessoa enlutada começa, na sequência disto, a apresentar um comportamento socialmente aceitável, que, porém, contraria as suas necessidades psicológicas. Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. O facto de receber pouco ou nenhum reconhecimento social da sua dor poderá levar a pessoa enlutada a recear que os seus pensamentos e sentimentos sejam anormais.
A reconciliação é fundamental no processo de luto. Ela designa a integração, por parte do enlutado, da nova realidade da vida sem a presença física da pessoa que morreu. A reconciliação permitirá que o enlutado tenha um senso de confiança e energia renovado, uma habilidade para reconhecer totalmente a realidade da morte, e a capacidade de se tornar envolvido novamente. E o mais importante: ele poderá reconhecer que, embora difíceis, a dor e o pesar são elementos necessários do viver. À medida que for ocorrendo a reconciliação, o enlutado poderá dar-se conta de que a vida será diferente sem a presença da pessoa que morreu. Mas para isso será essencial perceber que a reconciliação é um processo, não um acontecimento. Além da compreensão intelectual, há a compreensão emocional e espiritual. Ou seja: além de perceber na mente, vai perceber no coração: a pessoa amada morreu. A dor sentida vai deixar de ser omnipresente e aguda, para se transformar num sentimento de perda que pode ser reconhecido e dá vez a um significado e a um propósito renovados. O sentimento de perda não desaparece completamente, ele é atenuado e as crises de pesar, antes intensas, tornam-se menos frequentes e mais suaves. À medida que o enlutado começa a fazer novos envolvimentos, emerge a esperança de continuar a viver. É possível compreender que, apesar de a pessoa que morreu jamais vir a ser esquecida, a vida pode e deve continuar a ser vivida. Não se trata de “superar” o pesar. Quando o enlutado começa a mergulhar no trabalho do luto, irá reconciliar-se com ele.

A dor expressa em lágrimas é sinal de fraqueza.
 Que disparate! O pior que uma pessoa em processo de luto pode fazer é permitir que este julgamento a impeça de se expressar desta forma.
As lágrimas, que têm a potencialidade de provocar sentimentos de impotência nos familiares e amigos, são frequentemente associadas a fraqueza e a inadequação. Seja como for, o importante é não se deixar inibir e chorar o que for preciso.
Quem está preocupado com a pessoa enlutada pode, ao tentar evitar que ela chore, protegê-la – ou a si mesmo – da dor da perda. Ouvem-se frases como: «As lágrimas não o trarão de volta.» ou «Ele não gostaria de te ver chorar.». Não obstante, chorar é uma maneira natural de aliviar a tensão interna e, ao mesmo tempo, transmite a necessidade de conforto. Os investigadores acreditam que a supressão das lágrimas aumenta a possibilidade de distúrbios ligados ao stress.

Cada perda é única, porque cada pessoa é única e os laços que estabelecemos não têm par, o que condiciona as condições da dor pela perda daqueles que amamos. E há outros factores determinantes, como: as circunstâncias da morte, o sistema de apoio ao enlutado, as personalidades (incomparáveis) do enlutado e da pessoa que morreu, o contexto cultural, religioso e espiritual do enlutado, a envolvência dos rituais de luto, situações paralelas de crise ou stress na vida do enlutado…
Caetano Veloso disse: «Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.»

(adaptado de Maria Helena Pereira Franco)