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sábado, 29 de novembro de 2014

«Assumir que somos órfãos é das constatações mais difíceis de fazer»


«Perder os nossos pais dói sempre, muito. Mesmo quando já não somos crianças.
Nunca mais vou chamar pai e mãe. Quem é que vai tomar conta de mim?
Assumir que somos órfãos é das constatações mais difíceis de fazer. Deixamos de ser filhos de alguém. E por mais que intelectualmente ou racionalmente consigamos pôr as ideias no lugar e lidar com a realidade, emocionalmente não conseguimos compreender o que nos acabou de acontecer. E não sei se alguma vez chegarei a compreender.
Porque é que se dá tão pouca importância e atenção a quem se torna órfão em adulto? Pensaremos nós que já não precisamos tanto deles, que já teremos maturidade para lidar com a perda? Quando os pais morrem, perdemos o nosso porto seguro emocional. Já não temos o ombro paternal onde chorar um fracasso, a mãe que percebe os nossos dramas existenciais.»
(Marta Aragão Pinto, No Céu a Olhar por Mim)


Identifico-me completamente!!! 

... deixam um pouco de si, levam um pouco de nós...

«Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós

(Antoine de Saint-Exupéry)

A vida é um presente...


«… a vida é um presente engraçado. Ao princípio, sobrestimamos este presente: acreditamos ter recebido a vida eterna. Mais tarde, subestimamo-lo, achamos que é uma porcaria, muito curta, ficamos quase tentados a deitá-la fora. Por fim, percebemos que não era um presente, era apenas um empréstimo. E então esforçamo-nos por merecê-la.»
(Eric-Emmanuel Schmitt, Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa)

Viver no coração dos que ficam é não morrer


«Luto é os entes queridos viverem dentro de nós 
e nós vivermos serenos.»

(Daniel Sampaio, Tudo o que temos cá dentro)

Quatro atitudes-chave no luto

«“Escutar, acompanhar, confortar e dar esperança”, são atitudes-chave de quem acompanha quem está “doente” ou “moribundo” e aqueles que “estão a seu lado”, os familiares. Estas mesmas atitudes valem para o período do luto.»

(Padre Cristino Coelho, capelão hospitalar)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Por mais bem-intencionado que seja...


«O "puxar " para a frente, por mais bem-intencionado que seja, reflete a dificuldade dos próximos em lidar com a dor do outro - que precisa de tempo.»
Maria de Jesus Candeias, psicóloga clínica e investigadora

A quem está a passar pelo pior processo que um ser humano pode enfrentar...


"Dêem espaço a quem está a passar pelo pior processo que um ser humano pode enfrentar sem dizer constantemente «tens de fazer isto, tens de fazer aquilo...»"
Paulo Sousa Costa, produtor e jornalista, que perdeu um filho de 7 anos

Finalidade do luto



"Retomar uma condição de equilíbrio, face à vida e a nós próprios, é a finalidade do luto" 
José Rebelo, presidente da APELO - Associação de Apoio à Pessoa em Luto

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Céu das Mães


O Céu das Mães é um conto infantil que aborda o tema da perda, do luto de um ente querido, durante a infância.

Conta a história de um menino que perde a mãe e ouve com frequência os adultos fazerem a seguinte afirmação: «Não estejas triste… A tua mãe está no céu.»
Para esta criança a solução passa por construir uma escada para conseguir alcançar o lugar onde se encontra o principal referencial da sua vida: a Mãe.

Esta etapa leva o protagonista desta história a compreender a importância da partilha dos afectos, nomeadamente com o pai e a fazer o luto. Representa o passo fundamental para encontrar as respostas que procura.

O autor, Paulo Kellerman e a ilustradora Rute Reimão convidam-nos a acompanhar a “viagem” que esta criança faz ao seu passado, às suas memórias e a saber enquadrar as experiências que viveu com a mãe. 

No fundo, a capacidade de aceitar que a morte está intrinsecamente ligada à vida e que as memórias partilhadas fazem parte integrante do património imprescindível, e criador que uma geração transmite à outra independentemente do momento em que tal ocorre.

terça-feira, 1 de julho de 2014

EU AINDA PRECISO DA MINHA MÃE!

Lembrando o dia 29 de Junho, em que fez 19 anos que a minha mãe morreu, aqui vai para ela, numa altura em que tenho tanto tempo de vida com ela como sem ela, algo que continuo a sentir:

«Eu ainda preciso da minha mãe!!!
Não importa quantos anos tenho.
A minha mãe fez-me rir…
Secou as minhas lágrimas…
Abraçou-me confortavelmente…
Viu-me triunfar…
Viu-me cair…
Incentivou-me a manter-me forte…!!!
E “stressou-me” algumas vezes!!!
Mas a MINHA MÃE é uma promessa de que terei uma amiga para sempre.»

terça-feira, 27 de maio de 2014

Soneto do amor e da morte



Quando eu morrer murmura esta canção
Que escrevo para ti. Quando eu morrer
Fica junto de mim, não queiras ver
As aves pardas do anoitecer
A revoar na minha solidão.

Quando eu morrer segura a minha mão,
Põe os olhos nos meus se puder ser,
Se inda neles a luz esmorecer,
E diz do nosso amor como se não

Tivesse de acabar, sempre a doer,
Sempre a doer de tanta perfeição
Que ao deixar de bater-me o coração
Fique por nós o teu inda a bater,
Quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura,
in "Antologia dos Sessenta Anos"

terça-feira, 8 de abril de 2014

«Não é a morte em si que me preocupa. É antes o filme de terror que pode ser, para uma pessoa, a sua despedida desta vida.»
(Laura Ferreira dos Santos – autora, professora, cronista)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa



O livro «Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa», de Eric-Emmanuel Schmitt, explora a morte, o amor à vida, a fé em Deus, a luta pela dignidade na morte e a simplicidade de se conseguir multiplicar as horas em dias, os dias em meses e as semanas em anos... ou ainda mais!

São doze cartas que uma criança de 10 anos, doente com leucemia, escreve a Deus, em estilo de diário.

Em tudo ele é ajudado pelas boas ideias de uma voluntária na área da pediatria do hospital onde a criança está internada. Ela é a "vovó-rosa". Tornam-se amigos. Decidem que «cada dia equivale a dez anos» e Óscar passa a brincar ao faz-de-conta que avança no tempo e que aproveita a vida nas suas diferentes idades.

O livro, de 96 páginas na edição em português, pela MARCADOR, é um encanto de doçura e de valorização da vida e da saúde, que tão facilmente nos habituamos a gozar sem grandes intenções.

Numa das cartas, por exemplo, é referido que «A vida é um presente engraçado. Ao princípio, sobrestimamos este presente: acreditamos ter recebido vida eterna. Mais tarde, subestimamo-lo, achamos que é uma porcaria, muito curta, ficamos quase tentados a deitá-la fora. Por fim, percebemos que não era um presente, era apenas um empréstimo. Então, esforçamo-nos por merecê-la. (...) Quanto mais velhos somos, mais necessário é ter bom gosto para apreciar a vida. Temos de nos tornar requintados, artistas. Aos dez ou aos 20 anos qualquer idiota consegue gozar a vida, mas aos cem, quando não nos podemos mexer, é preciso usar a inteligência.»

A dita "vovó-rosa" desdobra-se em ideias novas conforme as necessidades da criança e consegue enaltecer-lhe os sentimentos a cada dia.

Um exemplo que fica – a vontade de viver o melhor possível.

A vida completa de significados é bela – como o filme.

 Outras personagens são os colegas de Óscar (no hospital é conhecido como Cabeça d'Ovo): Peggy Blue, Bacon, Einstein e Pop Corn.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

«Um dia a saudade deixa de ser dor e transforma-se em história para contar e guardar para sempre. Algumas pessoas são eternas… dentro de nós!»

Esta é uma história de amor!

A professora Ali Nunery tinha 31 anos quando um raro tipo de cancro pulmonar lhe tirou a vida.

Ela deixou um marido apaixonado, Ben, e uma filha, Olívia, com menos de 1 ano.

Após dois anos, Ben e Olívia decidiram que chegara a hora de fazer algo incrível em memória de Ali.

Pediram ajuda à irmã de Ali, fotógrafa, para fazer algumas fotos… 

Quando Ben e Ali se casaram em 2011, tinham acabado de comprar uma casa, que se tornou o cenário para o álbum de casamento, e da memória.

Melanie, irmã de Ali, ajudou a recriar as poses dos noivos… mas desta vez com o pai e a filha.

As fotos foram a forma de Ben mostrar à filha os bons momentos que eles passaram juntos na casa. Para ele, o espírito de Ali estará sempre com eles, não importa para onde vão.

A dado momento, Olívia parou para brincar no toucador.... como a mãe fizera no  dia do casamento... 

Quando Ben viu a sua linda noiva descer aquelas escadas anos antes, ele não tinha a menor ideia de que ele e sua filha iriam recriar os mesmos passos sem ela.

Mesmo com a enorme dor que Olívia e Ben passaram, ele acredita que Ali nunca os deixou sozinhos.

“As memórias de Ali não estão nessa casa. Elas vivem connosco, nos nossos corações”, ele disse.


Ben vê Ali todos os dias através dos olhos da sua pequena filha.

Durante as fotos, Ben se sentiu ainda mais próximo de sua filha e de sua esposa.

Melanie diz que também sentiu a presença da sua irmã durante as fotos, guiando-a para reproduzir as imagens mais emocionantes.

Ben e Olivia conversam e brincam com o anjo de cristal todos os dias. A pequenina chama ao objeto «mamã».


Os resultados da sessão de fotos foram inesperados para Ben. O que era para ser algo pessoal tomou proporções de grande impacto nas pessoas.

“Essa não é uma história de dor, perda e mágoa”, explica Ben.

“Essa é uma história de amor.”

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quando morre uma criança

O que se diz aos pais de uma criança que morreu de cancro? Cancro! Essa maldita doença imprevisível e implacável que toma de assalto um corpo como se fosse sua propriedade.

Ensinaram-me algumas respostas. Outras procurei. Outras experimentei. Ter respostas é importante. Se existe algo tão persistente e agressivo quanto o cancro é a resistência do «porquê?». Muitas vezes não se verbaliza, mas está lá. Sente-se.
É, e será, tão real quanto a ausência daquela criança nos anos vindouros. Sim, porque a saudade que mais custa não é aquela imediata. Nem a frustração maior é a da perda. Angústia é quando a memória começa a desvanecer-se, a ficar confusa. Afinal, o amor também tem prazo?

«Porquê» é uma pergunta do presente e do futuro.

Sei o que poderia dizer aos pais dessa criança. Não sei é o que lhes dizer.

Poderia falar-lhes sobre a fragilidade e a finitude do corpo. E se eles me responderem que o corpo é feito para comunicar, para tocar, para gerar vida; que o corpo é o que dá o ser ao ser humano?

Poderia ainda falar-lhes sobre Deus e o cuidado que Ele dedica a cada pessoa. E se eles me perguntarem porque é que então Deus age de um modo tão arbitrário curando uns e não outros, fazendo sentir a Sua presença a uns e não a outros?

O que se diz, então, a quem tem o coração suspenso numa cruz? A um pai que beija a morte do filho ou à mãe que abraça o frio do túmulo. Porque é que sofremos deste modo? «Porquê» é uma pergunta para a qual não tenho resposta e que me confronta com o limite das palavras.

Nenhum céu deveria escutar o choro de um pai ou de uma mãe.

Mas o «porquê» não é apenas uma pergunta nossa. «Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mt 27, 46 e Mc 15, 34). Vários teólogos dizem ser o cumprimento do Slm 22, 2. Não digo o contrário. Mas sabe-me a pouco.

«Porquê?»… «Porque me abandonaste»… é a pergunta que une Cristo a todo o ser humano.

Para o sofrimento de um pai ou de uma mãe não tenho respostas definitivas. Existe, todavia, uma pergunta, ou melhor, uma perplexidade que nos une. E talvez seja essa a minha resposta… a da em-patia, a da com-paixão, a do respeito por quem sofre.

Assim como estou certo da em-patia, da com-paixão de Cristo: um homem que verdadeiramente sofreu a solidão e o desespero de ver o coração da sua mãe suspenso na sua cruz. E, por isso, as poucas palavras que tenho para dizer envolvem sempre Cristo. Não sei o porquê do sofrimento. Sei, isso sim, onde está a chave de leitura.

Tenho muitas perguntas a fazer a Deus quando o encontrar face-a-face. Esta é certamente uma delas. «Porquê?».


(Tiago Freitas)

A morte na vida de um escritor...

– Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros...
– Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. (…) Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos... Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.

– Como contrariar a morte?
– Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.

– Isso alterou a sua forma de ser?
– Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.
(…)

(De uma entrevista a António Lobo Antunes – escritor –, publicada no Diário de Notícias de 30 de Setembro de 2007.)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

«O Meu Avô Foi Para o Céu» explica a morte aos mais jovens



 
livro de 
Maria Teresa Maia Gonzalez

O Tim está quase a fazer nove anos. Mora com os pais e os dois irmãos. Frequenta a escola, adora andar de skate, sonha ter um canguru como animal de estimação e tenciona ser astronauta. Todos os dias visita os avós maternos, que moram muito perto, e costuma ficar a ver o avô a trabalhar numa oficina que tem na garagem. Na verdade, o avô Jerónimo e o Tim são grandes companheiros! E por causa dessa grande cumplicidade entre os dois, aquele dia foi o pior da vida do Tim... quando o avô morreu!
Foi nessa altura que a avó Paula lhe fez um desafio inesperado:
"Podias escrever uma história (...) Quando te lembrasses de alguma coisa sobre o avô (...) Vocês os dois foram sempre tão amigos... Escrever pode ajudar-nos a ver as coisas de uma maneira diferente (mais inteligente!) e até a percebermos melhor o que vamos sentindo. Acho que ia ser muito bom!"

O livro é como um caderno (vemos no topo de cada página o desenho recortado que as argolas deixaram ficar...), de um rapaz esperto  e despachado, que conta memórias, lembra episódios marcantes como o primeiro dia que o avô o deixou entrar na sua oficina e ajudá-lo nos trabalhos manuais (desde que não mexesse em nada sem pedir), ou ainda aquele dia em que o avô lhe disse que quando soube que ia ter um neto se sentiu completamente maravilhado...E Tim acreditou, claro, porque se havia pessoa com jeito para ser avô era o avô Jerónimo!

Nesta (pequena grande) obra também se fala da doença, uma leucemia fatal, dos tratamentos, do internamento no hospital, dos tubos, dos soros, dos medicamentos...Tudo no tom certo, sem excessos, sem explicações absurdas, apenas factos honestos, reais. 

A autora tem a capacidade de explicar os temas mais difíceis sem ser paternalista. A leitura poderá ser uma ajuda aos mais novos para lidarem com a perda, muitas vezes, a primeira verdadeiramente significativa e marcante das suas vidas.  (texto de @ninh@ e Sonia, em http://retalhosnomundo.blogspot.pt)


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

«A morte é um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida»


“A morte é uma máquina de arrependimentos?” (pág. 51)

Título: O Filho
Autor: Michel Rostain
Editor: Sextante Editora

Comentário de DIANA M. FERREIRA | www.ruadebaixo.com

Michel Rostain é encenador de Óperas, tendo dirigido, entre 1995 e 2008, o Teatro Nacional de Quimper: Teatro da Cornualha. Estreia-se, agora, no meio literário com o romance semi-biográfico, “O Filho” (Sextante, 2013).

Não é fácil avaliar um livro sobre um tema tão insuportavelmente antinatural. Perder um filho é uma daquelas possibilidades impensáveis, sendo muito mais cómodo acreditar que não conheceremos essa realidade.

«Onde estou, a morte não está, e onde ela está eu não estou. Então, porquê temê-la?» Esta reflexão de Epicuro é uma das muitas que apresenta uma forma de estar perante a morte. 
(Com sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende compreender os dois temores que o impediriam o homem de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da morte. Para ele, a morte não existe enquanto o homem vive, e este não existe mais quando ela sobrevém.)
No entanto, a morte pode atingir-nos sem nos matar. É estar vivo e viver com a morte.

Em “O Filho”, a morte é um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida. Seja através das memórias que evocamos ao recordar o carácter de quem partiu, através da análise detalhada e quase obsessiva dos ‘últimos momentos’ (do resultado entre as escolhas que tomamos e as que desejaríamos ter tomado), seja através da louca e incessante busca de um sentido nos detalhes mais ínfimos.

Apesar da temática pesada e da profunda complexidade de sentimentos presentes na obra, trata-se de uma narrativa surpreendentemente leve. Com o filho como narrador desta estória, é até possível sorrir perante a sua visão daquilo que os pais procuram sobre o que foi a sua vida.

«Viva a vida», evoca com frequência este pai já sem filho. Por ser aquilo em que acredita – na vida, na vontade de viver – este pai grita «Viva a vida». Aceitar a perda não será o termo a aplicar neste caso, “acreditar” será mais eficaz. Este pai busca vestígios do filho; busca pedaços da vida do filho que desconhecesse, algum sinal de que ele queria (ou não) viver, de que a doença apenas existira porque o corpo deixara de querer viver. Procurava sinais, recados, mensagens ocultas. Sentidos. Procura um sentido no caos.

Com o desprendimento humorístico típico da juventude em relação ao sentimentalismo familiar reflectido no discurso, a descrição deste impiedoso processo de luto rejeita cair num encadeamento de lugares comuns e constrói, com uma dose humor que tem tanto de negro como doce, uma narrativa presa às íntimas tranças de memórias, filosofias e crenças – detalhes que tornam a dor de cada um tão intransmissivelmente sua. Assim, delicadamente esculpidos neste romance, estão não só o relato de uma perda e uma reflexão sobre o que é estar vivo, como também um dilema entre o ateísmo e o simbólico, tão próximo do sagrado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O livro "Os Anjos Não Comem Chocolate" fala-nos da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar um sentido para tudo



Rodrigo costumava dizer à mãe, Mila, que falava com Jesus e que iria morrer – «Vou para um sítio muito lindo, muito verde.»
Aos 7 anos, um acidente causado por um camião levou-lhe a vida e a do seu pai.
No dia do velório de Rodrigo, uma mulher de meia idade e olhar sereno aproximou-se de Mila e disse-lhe: «Sou uma mãe que também perdeu um filho. Queria dizer-lhe que ainda vai ser feliz. É uma felicidade diferente, mas vai ser.»

Enquanto presidente de uma associação de apoio a pais em luto, Mila viria a conviver de perto, ao longo dos anos que se seguiram, com centenas de homens e mulheres que, tal como ela, carregam a maior das dores que alguém pode sofrer: a perda de um filho. 

O livro "Os Anjos Não Comem Chocolate" fala-nos de amor, sofrimento, coragem – e, acima de tudo, da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar um sentido para tudo. Até para o impensável.