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segunda-feira, 30 de julho de 2012

«Acho que quando uma ligação é muito profunda e poderosa, vive para sempre em algum lugar muito além das palavras e é de uma beleza indescritível. Com toda a agonia da minha perda, eu não trocaria a beleza e o poder dessa ligação por nada.»

(Susan B. Wilson)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

«As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são por palavras não ditas e actos não realizados.»
(Harriet Beecher Stowe)


Aquele que sabe que vai morrer

Quando se olha para um homem que sabe que vai morrer – não num qualquer dia incerto, mas em breve e inexoravelmente – não é a morte que contemplamos, mas a vida que nele resiste, essa vida que nos desconcerta porque a achávamos impossível quando o futuro, a redentora ideia de futuro, desaparece. Um homem que sabe que vai morrer já só tem o presente e tudo o que a ele conduziu, tem o tempo – contado, escasso, precioso –, tem um corpo que talvez já não domine, tem fé ou não a tem, tem gente à sua volta ou está sozinho, tem-se a si mesmo – inteiro, desmascarado, definitivo.
Que o homem que sabe que vai morrer faça uma piada, chegue mesmo a contar uma anedota, parece-nos o supremo heroísmo, ou a piedosa fuga que a consciência sempre permite. Mas este homem não tem pena de si mesmo, nem lamenta a injustiça, nem pede nada mais a não ser que o deixem despedir-se a seu modo, a uns com acertos de contas antigas, confissões, abraços, palavras por fim pronunciadas, a outros com não mais que um prato de tremoços e uma cerveja sorvida muito devagar, sem nada para dizer, e se dissesse alguma coisa seria:
– Que gosto estar assim e não ser preciso dizer nada.
Mas nem isso, nem isso. Só uma troca de olhares de vez em quando, um sorriso que se estende lentamente pela rua em volta, pelo voo da gaivota, pelo som estridente do eléctrico, pelas sardinheiras vermelhas à varanda, pelas adolescentes que passam, à gargalhada.
Olha-se para um homem que sabe que vai morrer e tudo nele é vida. Esse é o seu mistério e a sua grandeza.

(Carla Romualdo)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A vida é o maior dom

O homem concreto não quer morrer mas morre. Esta existência, aqui, é finita e, talvez por isso mesmo, ainda mais valiosa. Há, no entanto, mais mundos. Mais vida. Pode bem ser que este mundo seja parte de um todo maior, talvez uma aventura por onde se passa antes de retornar à nossa terra. Uma espécie de porta estranha que se atravessa para chegar ao lugar de onde se terá saído!
Não se consegue fugir da morte. Mas são muitos os que não percebem que a vida é o maior de todos os dons, e por isso fogem dela! Incapazes de compreender que por maior que seja a riqueza de um homem, o mais importante não se pode comprar – apenas se pode receber, generosa e gratuitamente, de quem nos amar. Sem que se apliquem, sequer, as lógicas de expectáveis reciprocidades...
Pensar na morte ajuda a compreender o que somos. A sua proximidade devia fazer-nos sentir mais vivos. Carregamos a nossa morte pela vida. Carregamos a fé de saber que a morte não nos destrói, apenas nos leva daqui...
Valerá a pena pensar, e amar, com o cuidado absoluto de deixar de lado tudo quanto não é senão mera superficialidade. O que sobra, muito pouco, abrace-se.

(José Luís Nunes Martins)