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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

«O Meu Avô Foi Para o Céu» explica a morte aos mais jovens



 
livro de 
Maria Teresa Maia Gonzalez

O Tim está quase a fazer nove anos. Mora com os pais e os dois irmãos. Frequenta a escola, adora andar de skate, sonha ter um canguru como animal de estimação e tenciona ser astronauta. Todos os dias visita os avós maternos, que moram muito perto, e costuma ficar a ver o avô a trabalhar numa oficina que tem na garagem. Na verdade, o avô Jerónimo e o Tim são grandes companheiros! E por causa dessa grande cumplicidade entre os dois, aquele dia foi o pior da vida do Tim... quando o avô morreu!
Foi nessa altura que a avó Paula lhe fez um desafio inesperado:
"Podias escrever uma história (...) Quando te lembrasses de alguma coisa sobre o avô (...) Vocês os dois foram sempre tão amigos... Escrever pode ajudar-nos a ver as coisas de uma maneira diferente (mais inteligente!) e até a percebermos melhor o que vamos sentindo. Acho que ia ser muito bom!"

O livro é como um caderno (vemos no topo de cada página o desenho recortado que as argolas deixaram ficar...), de um rapaz esperto  e despachado, que conta memórias, lembra episódios marcantes como o primeiro dia que o avô o deixou entrar na sua oficina e ajudá-lo nos trabalhos manuais (desde que não mexesse em nada sem pedir), ou ainda aquele dia em que o avô lhe disse que quando soube que ia ter um neto se sentiu completamente maravilhado...E Tim acreditou, claro, porque se havia pessoa com jeito para ser avô era o avô Jerónimo!

Nesta (pequena grande) obra também se fala da doença, uma leucemia fatal, dos tratamentos, do internamento no hospital, dos tubos, dos soros, dos medicamentos...Tudo no tom certo, sem excessos, sem explicações absurdas, apenas factos honestos, reais. 

A autora tem a capacidade de explicar os temas mais difíceis sem ser paternalista. A leitura poderá ser uma ajuda aos mais novos para lidarem com a perda, muitas vezes, a primeira verdadeiramente significativa e marcante das suas vidas.  (texto de @ninh@ e Sonia, em http://retalhosnomundo.blogspot.pt)


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

«A morte é um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida»


“A morte é uma máquina de arrependimentos?” (pág. 51)

Título: O Filho
Autor: Michel Rostain
Editor: Sextante Editora

Comentário de DIANA M. FERREIRA | www.ruadebaixo.com

Michel Rostain é encenador de Óperas, tendo dirigido, entre 1995 e 2008, o Teatro Nacional de Quimper: Teatro da Cornualha. Estreia-se, agora, no meio literário com o romance semi-biográfico, “O Filho” (Sextante, 2013).

Não é fácil avaliar um livro sobre um tema tão insuportavelmente antinatural. Perder um filho é uma daquelas possibilidades impensáveis, sendo muito mais cómodo acreditar que não conheceremos essa realidade.

«Onde estou, a morte não está, e onde ela está eu não estou. Então, porquê temê-la?» Esta reflexão de Epicuro é uma das muitas que apresenta uma forma de estar perante a morte. 
(Com sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende compreender os dois temores que o impediriam o homem de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da morte. Para ele, a morte não existe enquanto o homem vive, e este não existe mais quando ela sobrevém.)
No entanto, a morte pode atingir-nos sem nos matar. É estar vivo e viver com a morte.

Em “O Filho”, a morte é um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida. Seja através das memórias que evocamos ao recordar o carácter de quem partiu, através da análise detalhada e quase obsessiva dos ‘últimos momentos’ (do resultado entre as escolhas que tomamos e as que desejaríamos ter tomado), seja através da louca e incessante busca de um sentido nos detalhes mais ínfimos.

Apesar da temática pesada e da profunda complexidade de sentimentos presentes na obra, trata-se de uma narrativa surpreendentemente leve. Com o filho como narrador desta estória, é até possível sorrir perante a sua visão daquilo que os pais procuram sobre o que foi a sua vida.

«Viva a vida», evoca com frequência este pai já sem filho. Por ser aquilo em que acredita – na vida, na vontade de viver – este pai grita «Viva a vida». Aceitar a perda não será o termo a aplicar neste caso, “acreditar” será mais eficaz. Este pai busca vestígios do filho; busca pedaços da vida do filho que desconhecesse, algum sinal de que ele queria (ou não) viver, de que a doença apenas existira porque o corpo deixara de querer viver. Procurava sinais, recados, mensagens ocultas. Sentidos. Procura um sentido no caos.

Com o desprendimento humorístico típico da juventude em relação ao sentimentalismo familiar reflectido no discurso, a descrição deste impiedoso processo de luto rejeita cair num encadeamento de lugares comuns e constrói, com uma dose humor que tem tanto de negro como doce, uma narrativa presa às íntimas tranças de memórias, filosofias e crenças – detalhes que tornam a dor de cada um tão intransmissivelmente sua. Assim, delicadamente esculpidos neste romance, estão não só o relato de uma perda e uma reflexão sobre o que é estar vivo, como também um dilema entre o ateísmo e o simbólico, tão próximo do sagrado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O livro "Os Anjos Não Comem Chocolate" fala-nos da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar um sentido para tudo



Rodrigo costumava dizer à mãe, Mila, que falava com Jesus e que iria morrer – «Vou para um sítio muito lindo, muito verde.»
Aos 7 anos, um acidente causado por um camião levou-lhe a vida e a do seu pai.
No dia do velório de Rodrigo, uma mulher de meia idade e olhar sereno aproximou-se de Mila e disse-lhe: «Sou uma mãe que também perdeu um filho. Queria dizer-lhe que ainda vai ser feliz. É uma felicidade diferente, mas vai ser.»

Enquanto presidente de uma associação de apoio a pais em luto, Mila viria a conviver de perto, ao longo dos anos que se seguiram, com centenas de homens e mulheres que, tal como ela, carregam a maior das dores que alguém pode sofrer: a perda de um filho. 

O livro "Os Anjos Não Comem Chocolate" fala-nos de amor, sofrimento, coragem – e, acima de tudo, da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar um sentido para tudo. Até para o impensável.