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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dicas para um luto sadio

É útil, ao longo do processo de luto, prestar atenção a eventuais indicadores de patologia psiquiátrica e, por conseguinte, da necessidade de ajuda profissional, tais como: não ser capaz de falar da pessoa que morreu, incapacidade para se separar das coisas dela, reacções emocionais de intensidade desmedida, afastamento de todos aqueles que rodeavam o falecido, compulsão para o imitar, sintomas físicos semelhantes aos que lhe provocaram a morte, impulsos destrutivos, tristeza excessiva, consumo de álcool, drogas ou outras substâncias…

C.S. Lewis e José Carlos Bermejo escreveram livros que ajudam a compreender e a viver o luto.
A primeira afirma: «A morte de uma pessoa amada é uma amputação» (LEWIS, C. S. A anatomia de uma dor – Um luto em observação. São Paulo: Vida, 2007, p. 12).
O segundo explica: A dor dessa amputação, no entanto, não precisa de ser negada, suavizada nem reduzida «a uma experiência obscura e sem saída», mas «soar ao ritmo da esperança» (BERMEJO, José Carlos. Estou de luto – Reconhecer a dor para recuperar a esperança. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 7).
E acrescenta: «Evitar conscientemente uma dor conduz-nos, mais cedo ou mais tarde, a algum tipo de "colapso emocional"» (BERMEJO, p. 66).


Para viver o luto de forma sadia:
Bermejo adianta, na página 13 do seu livro: «Não é exactamente a razão que mais nos ajuda nos momentos de dor pela perda de um ente querido, embora às vezes pareça que desejamos isso e pretendamos fazer-nos estóicos e tentemos consolar-nos com argumentos em vez de afectos.»
E na página 133 aclara: «O afecto sincero, comunicado de modo profundo com os nossos sentimentos, muito mais do que com a razão, será o caminho mais adequado para acompanhar quem vive a perda de um ente querido e elabora a dor.»
Algumas acções de afecto que se apresentam terapêuticas ou consoladoras são: o choro, a capacidade de escuta, o abraço e o toque físico, a recordação, o pedido de ajuda.
«Chorar tem um efeito benéfico de libertação: relaxa, desafoga, produz descanso e tranquilidade de espírito, promove a reconciliação consigo mesmo e com os outros, repara, restabelece a ordem e o equilíbrio com o passado para permitir viver o presente de modo sereno, abranda, deixa visível a fragilidade, ou, se se preferir, a fortaleza dos sentimentos e do apreço pelo ente querido. E abrandar-se é humanizar-se» (BERMEJO, p. 51, 52).
«As mãos, no contacto corporal, têm muito poder quando nelas está posto o coração» (BERMEJO, p. 56).

 No que se refere ao acto de ouvir, há que ter em conta dois aspectos:
 – Relatar os últimos acontecimentos pode ser um alívio, desde que não seja repetitivo e, então, passa a tornar-se um fardo (BERMEJO, p. 58);
– Ouvir tudo sem emitir qualquer espécie de julgamentos. «Por isso estou a aprender como é importante ouvir e ter alguém que ouça sem julgar. Sim, sem julgar nada, nada» (BERMEJO, p. 60).

Do mesmo modo, na recordação, que é terapêutica, é preciso cuidado para não cair na obsessão (BERMEJO, p. 62). Bermejo (p. 162) sublinha que há «datas e situações em que a recordação se torna particularmente viva»: Natal, Ano Novo, acontecimentos familiares de relevo.
Nessas ocasiões, algumas pessoas:
Consideram que recordar «pode estragar a festa»;
«Não se permitem expressar uma recordação em público, precisamente para não serem consideradas "desmancha-prazeres", simulando alegria quando na realidade estão a sofrer»;
«Não se permitem celebrar, pois parece uma ofensa à pessoa querida que não está presente».
«No entanto, a verdadeira celebração é aquela capaz de dar espaço – especialmente no coração – às pessoas que não estão, mas que se desejaria que estivessem» (BERMEJO, p. 163).

Bermejo alude, neste contexto, à estratégia de fazer os mortos verbalmente presentes, que pode ser dolorosa por um lado, porém benéfica do ponto de vista emocional (p. 163). E ilustra com este depoimento: «Pouco a pouco estamos a aprender a viver sem ti; e embora não seja fácil, porque tu preenchias tudo, percebemos que é mentira que a morte rouba a vida, pois a vida é como uma tocha que passa de mão em mão. E tu estarás sempre connosco, a ocupar um lugar muito especial no nosso coração» (BERMEJO, p. 163).


Estas acções terapêuticas “descobrem a careca” ao mito de que “o tempo cura tudo”. O tempo é somente um requisito, não um factor terapêutico. E pode, se não houver ajuda adequada, transformar-se num grande inimigo.
«A medicina do tempo, considerada em si mesma, não é segura. O tempo é neutro. O que ajuda é aquilo que cada um faz com o tempo» (BERMEJO, p. 167).

A idealização da pessoa falecida constitui outro perigo no processo de luto. Num dos diversos testemunhos do livro de Lewis aparece: «Se eu der rédea solta a esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente» (LEWIS, p. 30).
«Qualquer realidade é iconoclasta. A pessoa amada na Terra, nesta vida, não cessa de triunfar sobre a simples ideia que fazemos dela. E queremos que seja assim; queremo-la com todas as resistências, todas as falas, toda a sua imprevisibilidade, isto é, na sua realidade franca e independente. E é isso, e não outra imagem ou lembrança qualquer, que devemos amar mesmo depois de ela morrer» (LEWIS, p. 83).

A idealização patológica da pessoa falecida é passível de gerar sentimentos de culpa que impedem um luto sadio.
«O processo de elaboração do luto significa reinstalar dentro de si mesmo os entes queridos; dar-lhes uma presença interna na qual o ser perdido não seja um perseguidor interior que gere culpa, e sim uma boa recordação» (BERMEJO, p. 13).
«Na realidade, não se deve esquecer a pessoa amada, nem mantê-la no mesmo lugar vital. O objectivo não é esse, mas sim reestruturar o tipo de vínculo e a forma de se relacionar com ela, tomando uma consciência realista daquilo a que se deve realmente renunciar (a presença física e todas as suas implicações) e ao que não (o significado no coração e na própria história)» (BERMEJO, p. 88).
«Conservar o quarto do morto intacto, como uma espécie de "museu" em sua honra, pode ser um indicador de complicações no luto, de negação ou de culpa, por associar a ideia de retirar as coisas deste a uma sensação de "matá-lo" no coração, ou manifestar diante de si mesmo, diante do falecido e dos outros uma espécie de "indiferença" relativamente à sua morte» (BERMEJO, p. 103).
Nesta perspectiva, ter ajuda para remover as coisas da pessoa falecida é muito importante.

A redescoberta pessoal é algo que brota da esperança que emerge no meio da tormenta de tantas emoções que acometem o enlutado. Advém, geralmente, do crescimento interior que a dor da perda incute e da redescoberta da própria fé. Uma fé nova, sólida como nunca.
«A verdadeira consolação da religião não é cor-de-rosa nem cómoda, mas con-fortadora, no sentido verdadeiro da palavra: com força» (LEWIS, p. 14).
«Nunca temos consciência do quanto efectivamente acreditamos em alguma coisa enquanto a verdade ou a falsidade dessa coisa não se torna uma questão de vida ou morte para nós» (LEWIS, p. 45).
«Na fragilidade experimentada no luto se mostra a fortaleza do amor que unia as pessoas agora separadas pela morte» (BERMEJO, p. 48).

A esperança – de enfrentar a dor, aprender com ela e transcender o que vemos e sentimos – só é possível se o luto for vivido.
«Quem, por ocasião do luto, não aprende a lição, torna-se mais apático. Quem aprende com ele, humaniza-se» (BERMEJO, p. 149).
«A esperança faz com que o presente seja vivido em tensão com o futuro e que se antecipe o sabor do esperado, mas sem o esgotar. A esperança tem a ver com a confiança, não com o optimismo superficial ou com a certeza absoluta. Melhor dizendo: é irmã da insegurança, e do medo, mas convive com a coragem, a paciência, a integridade e a constância. Esperar é aguardar com paciência» (BERMEJO, p. 125).
«Viver a própria morte consiste também em elaborar de forma sadia o luto antecipador, em fazer da experiência das perdas uma oportunidade para procurar sentido nas relações interpessoais e nos valores que podem qualificar a própria perda» (BERMEJO, p. 154).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

«Às vezes, quando sentimos a falta de alguém, parece que o mundo inteiro está vazio de gente.»

(Lamartine)

Alguns mitos sobre o luto

(que dificultam muito uma compreensão clara a respeito de uma experiência tão humana e universal)

Luto e pesar são a mesma coisa.
É falso. O pesar é um complexo de pensamentos e sentimentos relacionados com a perda, que são vividos internamente. Por outras palavras, é o significado interno dado à experiência do luto.
O luto é o pesar público, a expressão partilhada desses pensamentos e sentimentos com as pessoas que nos cercam. Chorar, falar sobre a pessoa que morreu, celebrar datas especiais, são exemplos de luto. Ainda que esta expressão aconteça sem a presença de outras pessoas, pode ser considerada como uma forma saudável de luto.

A vivência da perda e do luto progride de acordo com fases previsíveis e sequenciadas.
É igualmente falso. Não é possível falar com precisão dessa sequência, embora exista a necessidade de compreender o processo e de tentar controlá-lo. A noção de fases pode, eventualmente, ajudar as pessoas a encontrarem sentido para a sua experiência de luto, mas é impossível substituir o medo e a sensação de falta de sentido, naturais num processo de luto, pelas falsas certezas de que os outros viveriam essa experiência passando exactamente pelas mesmas fases.
É frequente a pessoa enlutada encontrar outras, na mesma situação, que adoptaram um sistema de crenças rígido acerca do que deve ser experimentado ao longo do luto. Essas crenças são passíveis de afectar profundamente o processo individual natural. Podem encontrar-se respostas de desorganização, medo, culpa, mas também podem não se encontrar. É expectável que a regressão possa ou não ocorrer, ou sobrepor-se a qualquer outra das respostas. As emoções são susceptíveis de se seguirem umas às outras com intervalos curtos ou aparecerem em simultâneo duas ou mais emoções.
Cada um fica enlutado à sua maneira, não existindo formas melhores ou piores, nem, muito menos, a imposição de uma sequência rígida como norma do processo. O luto é uma experiência pessoal e única!

Devemos sair do luto em vez de o enfrentar.
Muitas vezes, espalha-se a ideia errada de que o objectivo de quem sofre uma perda é superar o luto o quanto antes.
A sociedade ocidental aconselha-nos (quando não nos obriga!) a abandonar prematuramente a experiência do luto. Por conseguinte, ou o enlutado vive o seu processo isoladamente, ou se força a abandoná-lo antes de o ter completado. Amigos e familiares, bem-intencionados mas desinformados, tentam fazer com que ele desenvolva autocontrolo, entendendo que essa é a resposta adequada, tornando muito difícil para o enlutado enfrentar esta mensagem poderosa, que encoraja a repressão emocional.
Existe, a nível cultural, uma grande impaciência relativamente ao pesar e ao desejo de sair rapidamente da experiência do luto. Contudo, esta mensagem do «Tens de ser forte! Não te deixes abater!», tendo como pano de fundo uma enorme pressão para voltar à vida normal, rotula de fracos e malucos os que continuam a expressar tristeza mais prolongadamente.
O luto passa, deste modo, a ser visto como algo a ser evitado e não como uma coisa que tem de ser vivida. A pessoa enlutada começa, na sequência disto, a apresentar um comportamento socialmente aceitável, que, porém, contraria as suas necessidades psicológicas. Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. O facto de receber pouco ou nenhum reconhecimento social da sua dor poderá levar a pessoa enlutada a recear que os seus pensamentos e sentimentos sejam anormais.
A reconciliação é fundamental no processo de luto. Ela designa a integração, por parte do enlutado, da nova realidade da vida sem a presença física da pessoa que morreu. A reconciliação permitirá que o enlutado tenha um senso de confiança e energia renovado, uma habilidade para reconhecer totalmente a realidade da morte, e a capacidade de se tornar envolvido novamente. E o mais importante: ele poderá reconhecer que, embora difíceis, a dor e o pesar são elementos necessários do viver. À medida que for ocorrendo a reconciliação, o enlutado poderá dar-se conta de que a vida será diferente sem a presença da pessoa que morreu. Mas para isso será essencial perceber que a reconciliação é um processo, não um acontecimento. Além da compreensão intelectual, há a compreensão emocional e espiritual. Ou seja: além de perceber na mente, vai perceber no coração: a pessoa amada morreu. A dor sentida vai deixar de ser omnipresente e aguda, para se transformar num sentimento de perda que pode ser reconhecido e dá vez a um significado e a um propósito renovados. O sentimento de perda não desaparece completamente, ele é atenuado e as crises de pesar, antes intensas, tornam-se menos frequentes e mais suaves. À medida que o enlutado começa a fazer novos envolvimentos, emerge a esperança de continuar a viver. É possível compreender que, apesar de a pessoa que morreu jamais vir a ser esquecida, a vida pode e deve continuar a ser vivida. Não se trata de “superar” o pesar. Quando o enlutado começa a mergulhar no trabalho do luto, irá reconciliar-se com ele.

A dor expressa em lágrimas é sinal de fraqueza.
 Que disparate! O pior que uma pessoa em processo de luto pode fazer é permitir que este julgamento a impeça de se expressar desta forma.
As lágrimas, que têm a potencialidade de provocar sentimentos de impotência nos familiares e amigos, são frequentemente associadas a fraqueza e a inadequação. Seja como for, o importante é não se deixar inibir e chorar o que for preciso.
Quem está preocupado com a pessoa enlutada pode, ao tentar evitar que ela chore, protegê-la – ou a si mesmo – da dor da perda. Ouvem-se frases como: «As lágrimas não o trarão de volta.» ou «Ele não gostaria de te ver chorar.». Não obstante, chorar é uma maneira natural de aliviar a tensão interna e, ao mesmo tempo, transmite a necessidade de conforto. Os investigadores acreditam que a supressão das lágrimas aumenta a possibilidade de distúrbios ligados ao stress.

Cada perda é única, porque cada pessoa é única e os laços que estabelecemos não têm par, o que condiciona as condições da dor pela perda daqueles que amamos. E há outros factores determinantes, como: as circunstâncias da morte, o sistema de apoio ao enlutado, as personalidades (incomparáveis) do enlutado e da pessoa que morreu, o contexto cultural, religioso e espiritual do enlutado, a envolvência dos rituais de luto, situações paralelas de crise ou stress na vida do enlutado…
Caetano Veloso disse: «Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.»

(adaptado de Maria Helena Pereira Franco)

«A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe.»

(Allá Bozarth-Campbell)

sábado, 22 de junho de 2013

A experiência do luto

A experiência do luto é sempre um naufrágio. A morte do meu pai foi uma experiência de desamparo, de interrogação muito forte. Mas uma vez fui ao cemitério, estive lá muito tempo. Estava sentado a olhar para o túmulo, numa conversa silenciosa. E ao meu lado puseram-se dois gatos. Aquilo fez-me muito bem.


O que é que isso quer dizer?


Não quer dizer nada. Quer dizer a doçura da vida. Mesmo no meio do luto, os sinais do presente, a narrativa da existência, continuam. Em pequeninas medidas, quando a gente sente que a vida se vem sentar ao nosso lado, mansamente, estamos a renascer. Que o processo do luto se torna um lugar de reaprendizagem, de reenvio para a própria vida.


(Padre Tolentino Mendonça, SNPC)