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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

«Um dia a saudade deixa de ser dor e transforma-se em história para contar e guardar para sempre. Algumas pessoas são eternas… dentro de nós!»

Esta é uma história de amor!

A professora Ali Nunery tinha 31 anos quando um raro tipo de cancro pulmonar lhe tirou a vida.

Ela deixou um marido apaixonado, Ben, e uma filha, Olívia, com menos de 1 ano.

Após dois anos, Ben e Olívia decidiram que chegara a hora de fazer algo incrível em memória de Ali.

Pediram ajuda à irmã de Ali, fotógrafa, para fazer algumas fotos… 

Quando Ben e Ali se casaram em 2011, tinham acabado de comprar uma casa, que se tornou o cenário para o álbum de casamento, e da memória.

Melanie, irmã de Ali, ajudou a recriar as poses dos noivos… mas desta vez com o pai e a filha.

As fotos foram a forma de Ben mostrar à filha os bons momentos que eles passaram juntos na casa. Para ele, o espírito de Ali estará sempre com eles, não importa para onde vão.

A dado momento, Olívia parou para brincar no toucador.... como a mãe fizera no  dia do casamento... 

Quando Ben viu a sua linda noiva descer aquelas escadas anos antes, ele não tinha a menor ideia de que ele e sua filha iriam recriar os mesmos passos sem ela.

Mesmo com a enorme dor que Olívia e Ben passaram, ele acredita que Ali nunca os deixou sozinhos.

“As memórias de Ali não estão nessa casa. Elas vivem connosco, nos nossos corações”, ele disse.


Ben vê Ali todos os dias através dos olhos da sua pequena filha.

Durante as fotos, Ben se sentiu ainda mais próximo de sua filha e de sua esposa.

Melanie diz que também sentiu a presença da sua irmã durante as fotos, guiando-a para reproduzir as imagens mais emocionantes.

Ben e Olivia conversam e brincam com o anjo de cristal todos os dias. A pequenina chama ao objeto «mamã».


Os resultados da sessão de fotos foram inesperados para Ben. O que era para ser algo pessoal tomou proporções de grande impacto nas pessoas.

“Essa não é uma história de dor, perda e mágoa”, explica Ben.

“Essa é uma história de amor.”

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quando morre uma criança

O que se diz aos pais de uma criança que morreu de cancro? Cancro! Essa maldita doença imprevisível e implacável que toma de assalto um corpo como se fosse sua propriedade.

Ensinaram-me algumas respostas. Outras procurei. Outras experimentei. Ter respostas é importante. Se existe algo tão persistente e agressivo quanto o cancro é a resistência do «porquê?». Muitas vezes não se verbaliza, mas está lá. Sente-se.
É, e será, tão real quanto a ausência daquela criança nos anos vindouros. Sim, porque a saudade que mais custa não é aquela imediata. Nem a frustração maior é a da perda. Angústia é quando a memória começa a desvanecer-se, a ficar confusa. Afinal, o amor também tem prazo?

«Porquê» é uma pergunta do presente e do futuro.

Sei o que poderia dizer aos pais dessa criança. Não sei é o que lhes dizer.

Poderia falar-lhes sobre a fragilidade e a finitude do corpo. E se eles me responderem que o corpo é feito para comunicar, para tocar, para gerar vida; que o corpo é o que dá o ser ao ser humano?

Poderia ainda falar-lhes sobre Deus e o cuidado que Ele dedica a cada pessoa. E se eles me perguntarem porque é que então Deus age de um modo tão arbitrário curando uns e não outros, fazendo sentir a Sua presença a uns e não a outros?

O que se diz, então, a quem tem o coração suspenso numa cruz? A um pai que beija a morte do filho ou à mãe que abraça o frio do túmulo. Porque é que sofremos deste modo? «Porquê» é uma pergunta para a qual não tenho resposta e que me confronta com o limite das palavras.

Nenhum céu deveria escutar o choro de um pai ou de uma mãe.

Mas o «porquê» não é apenas uma pergunta nossa. «Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mt 27, 46 e Mc 15, 34). Vários teólogos dizem ser o cumprimento do Slm 22, 2. Não digo o contrário. Mas sabe-me a pouco.

«Porquê?»… «Porque me abandonaste»… é a pergunta que une Cristo a todo o ser humano.

Para o sofrimento de um pai ou de uma mãe não tenho respostas definitivas. Existe, todavia, uma pergunta, ou melhor, uma perplexidade que nos une. E talvez seja essa a minha resposta… a da em-patia, a da com-paixão, a do respeito por quem sofre.

Assim como estou certo da em-patia, da com-paixão de Cristo: um homem que verdadeiramente sofreu a solidão e o desespero de ver o coração da sua mãe suspenso na sua cruz. E, por isso, as poucas palavras que tenho para dizer envolvem sempre Cristo. Não sei o porquê do sofrimento. Sei, isso sim, onde está a chave de leitura.

Tenho muitas perguntas a fazer a Deus quando o encontrar face-a-face. Esta é certamente uma delas. «Porquê?».


(Tiago Freitas)

A morte na vida de um escritor...

– Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros...
– Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. (…) Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos... Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.

– Como contrariar a morte?
– Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.

– Isso alterou a sua forma de ser?
– Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.
(…)

(De uma entrevista a António Lobo Antunes – escritor –, publicada no Diário de Notícias de 30 de Setembro de 2007.)