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sexta-feira, 12 de junho de 2015

E o resto?


Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?"

Há vinte anos, quando morreu o meu pai, dizia-se: "Os meus pêsames." É feio. É pesado. Mas, quando se está de luto, as coisas pesadas (e as leves) fazem companhia.

Agora dizem-me: "Os meus sentimentos." É mais bonito. Mas continua a faltar um verbo qualquer. Quem diz "os meus sentimentos" diz "as minhas emoções", "as minhas lágrimas" ou "as minhas ideias".

Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?" Será, por exemplo, "Os meus sentimentos por si são de compaixão e solidariedade"? Ou "Os meus sentimentos estão a dar cabo de mim"? Ou "Os meus sentimentos só eu é que sei quais são"?

"Os meus sentimentos" são o sujeito de uma oração a que falta, no mínimo, um predicado e, na mais liberal das expectativas, um complemento directo.

O que se responde a "os meus sentimentos"? "Os meus agradecimentos?" Mas quais são os sentimentos de que estamos a falar?

A língua portuguesa tem muitas saudades dos verbos. "Sinto muito" ou só "lamento" dizem mais do que um artigo definido, um pronome possessivo e um substantivo. Até um só substantivo ("Que pena!") é melhor.

Ainda por cima os sentimentos atrás da fórmula "os meus sentimentos" são genuínos e comoventes. Se calhar é: "Os meus sentimentos... têm reticências ricas."

Será que, na verdade, é "Os meus sentimentos...[são de tal ordem difíceis de exprimir que o melhor é eu ficar por aqui...]"?
Hoje acredito que sim. Porque até os meus sentimentos...

Miguel Esteves Cardoso | Público, 04/06/2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Acreditas na vida depois do parto?

No ventre de uma mulher grávida, encontravam-se dois bebés.
Um deles pergunta ao outro:
- Acreditas na vida depois do parto?
- Claro que sim. Deve haver algo depois do parto. Talvez estejamos aqui, porque precisamos de nos preparar, para o que seremos mais tarde.
- Que tolice. Não há vida depois do parto! Como seria essa vida?
- Não sei. Seguramente haverá mais luz que aqui. Talvez caminhemos, com os nossos próprios pés, e nos alimentemos, pela boca.
- Isso é absurdo. Caminhar é impossível. E comer pela boca? Isso é ridículo. Só pelo cordão umbilical. Eu digo-te uma coisa: a vida depois do parto está fora de questão. O cordão umbilical é demasiado curto.
- Pois eu creio que deve haver algo mais. E talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos acostumados a ter aqui.
- Mas nunca voltou ninguém, depois do parto, para nos dizer nada! Não. O parto é o fim da vida. E, no final de contas, a vida não é mais que uma angustiosa existência na obscuridade que não leva a nada.
- Bem, eu não sei exatamente como será depois do parto, mas certamente que veremos a mamã e ela cuidará de nós.
- Mamã?! Tu acreditas na mamã? Onde pensas tu que ela está?
- Aonde? Em tudo, à nossa volta. Nela e através dela é que vivemos. Sem ela, este mundo não existiria. 
- Pois eu não creio. Nunca vi a mamã, portanto é lógico que não exista. 
- Bem, às vezes, quando estamos em silêncio, tu podes ouvi-la a cantar ou sentir como acaricia o nosso mundo. Sabes? Eu penso que há uma vida real que nos espera e que agora apenas nos estamos a preparar para ela…
José António Goñi

quinta-feira, 5 de março de 2015

Felizes os que acreditam e amam


"Uma vez, uma jovem estudante pediu-me para fazer um trabalho sobre o riso. Porquê? Queria entender porque é que a mãe, entrando na igreja para a celebração da missa de corpo presente da avó, ao deparar-se com o cadáver, começou a rir.

Diferença essencial entre o ser humano e os outros animais é o riso e o sorriso. Eles são manifestação da inteligência superior e de transcendência.

Perante o cadáver, seja ele de quem for, mas sobretudo de um ente próximo e querido, íntimo, há um choque de emoção e razão, sobrepondo-se a razão. De um modo ou outro, acabamos por nos rever no cadáver, a nossa posição futura está ali, desabando então, frente àquela figura coisificada, toda a vaidade e todo o ridículo da soberba e grandeza imaginada, que vão ser pó ou cinza. E aí está a tensão que obriga a transcender. Por outro lado, antes ainda, depois ou em concomitância, está aí a revolta: a minha mãe não foi nem é esta coisa cadavérica aí em frente. No limite do trágico, sobrevem o riso, clamando transcendência. É a explosão do conflito entre o intolerável do que se mostra e uma transcendência para que se aponta." 
()Anselmo Borges, em O riso e a transcendência, Diário de Notícias31 janeiro 2015)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um filme com interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte.


Amar, Beber e Cantar
Título original: Aimer, boire et chanter
De: Alain Resnais
Com: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol
Género: Comédia
Outros dados: FRA, 2014, Cores, 108 min.
No condado de Yorkshire, Inglaterra, três casais são abalados pela triste notícia de que George Riley, um amigo em comum, sofre de uma doença terminal e que lhe restam seis meses de vida. De forma a aliviar a dor de George e proporcionar-lhe alguma alegria nos últimos meses, os seis decidem convidá-lo para se juntar ao seu grupo de teatro amador. O que ninguém esperava era que aquela aproximação fizesse vir ao de cima muitas histórias do passado que iriam alterar a dinâmica entre cada casal. E as coisas complicam-se quando George – que, no filme, nunca chega a ser visto ou ouvido – resolve fazer uma viagem a Tenerife, Espanha. Cada uma das mulheres, determinada a marcar a diferença na vida dele, quer acompanhá-lo, deixando os seus respectivos maridos em total perplexidade…



Foi o último trabalho de Alain Resnais, tornado público pouco tempo antes da sua morte.



Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido

Amar, Beber e Cantar surpreende-nos a cada passo e deixa-nos com permanentes interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte. É, mais uma vez, um grande filme e é bom que Resnais tenha terminado assim a sua carreira de mais de 70 anos.



O filme conduz-nos a um grupo de actores amadores que ensaia uma peça, mas depressa percebemos que o teatro em curso é apenas um pretexto para nos contar a vida das personagens, cujas estórias sentimentais se entrecruzam a cada instante. A certa altura, não sabemos o que é real e o que é ficção, num jogo sem fim em que Resnais é mestre.

George, um dos amigos, recebe a notícia de que tem uma doença fatal e que lhe restam apenas seis meses de vida. Este facto altera a vida de todos e passa a ser o motivo principal das sucessivas motivações e comportamentos dos outros. George, que nunca chegamos a visualizar (num truque de Resnais para estimular a nossa imaginação), exerce um fascínio sobre todas as mulheres, que o disputam até ao fim, perante o embaraço dos homens a quem estão ligadas oficialmente.

O realizador estabelece um permanente paralelo entre o palco e a vida real. Não entramos no interior das casas porque tudo se passa cá fora, como se os protagonistas estivessem a “representar” a sua intimidade. As paisagens bucólicas alternam com cenários e animação teatral, numa tentativa permanente de criar uma distanciação. O diálogo, muito vivo e irónico, alterna com monólogos de algumas personagens, que falam sozinhas, em grande plano, diante de um fundo abstracto.

O tempo, um dos temas sempre presentes em Alain Resnais, aparece de novo: na obsessão com os relógios de Colin, nos poucos meses que restam a George, nos atrasos da encenadora e no passado amoroso das mulheres, revelado aos poucos com o desenrolar da acção.

A representação é sublime — com destaque para Sabine Azéma, a viúva de Resnais — porque os actores são dirigidos com mestria e, num filme que parece, à partida, um simples divertimento do realizador para connosco, emergem subtilmente os grandes temas dos casais de meia-idade: o envelhecimento e a proximidade da morte, o declínio da vida sexual, a traição e o ciúme, a perplexidade face ao comportamento dos filhos e a verdade ou a mentira sobre a intimidade.

Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido.

Só se canta no fim, mas saímos do filme com as imagens na cabeça e a música da nossa própria vida em pano de fundo.   


Texto de DANIEL SAMPAIO, em Público, 2.11.2014

Saudades, são memórias


"Saudades, são memórias impregnadas de emoções vividas intensamente, que deixam uma tatuagem interna de algo que para todo o sempre permanecerá connosco." 
(Miguel Lucas, em «Motivação»)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A vida é isto...


«A vida é isto: 
as escolhas que fazemos, 
as pessoas que conhecemos, 
os amores que vivemos,
as dores que padecemos 
e os legados que deixamos.»
Kaluxa Sousa Eddie Sousa, em «Os Três Eus»

domingo, 11 de janeiro de 2015

O luto à nossa maneira


«É importante aceitarmos esse período escuro, essa realidade triste, esse “nunca mais”. Não somos obrigados a enfrentar uma fase tão dura da nossa vida com actos de heroísmo. Esta não é a altura para sermos heróis. Podemos lamentar-nos, dizer que temos saudades, chorar muito, sozinhos ou acompanhados. Quando é que começámos a ter vergonha de chorar as pessoas que perdemos? Somos adultos mas podemos sentir-nos pequeninos, desamparados, fragilizados. Vamos precisar de apoio e de carinho.
Hoje, choro quando tenho de chorar, penso quando tenho de pensar, relembro quando tenho de relembrar. Sem vergonha, sem medo do que os outros possam pensar.»
(Marta Aragão Pinto, No Céu a Olhar por Mim, pág. 145)


Comunhão na dor


«Estou na pele de quem sofre. É isto que sinto. Quando alguém próximo de mim passa por uma situação destas – da morte de alguém importante – eu sofro porque sei aquilo que estão a sentir, o buraco para onde deslizam devagar e do tempo que demora a sarar uma ferida tão grande. Conheço essa dor que nos paralisa e nos prende o coração.
Nos primeiros tempos, não sentimos nada, nem o que nos dói nem o que nos faz bem. Fazemos o que nos é pedido, aguentamos o dia, esperamos a noite para descansar do esforço de sobreviver. Chegará o dia em que, devagar, vamos acordando para a nova realidade. É uma escolha, teremos de ser nós a decidir. Para podermos voltar a sentir o bom, a experimentar a alegria e a felicidade, teremos de percorrer todos os caminhos da dor. É preciso fazer o luto. Correr o risco de sofrer – porque vamos sofrer, muito – para, depois, nos alimentarmos do amor. Porque o amor nunca morre.»

(Marta Aragão Pinto, No Céu a Olhar por Mim, págs. 144, 145)