Este blogue - tal como o livro "O meu outro pai" - pretende ser um tributo ao meu pai e à minha mãe e um meio de comunhão com quem se encontre a viver um processo de luto. Será um espaço de diálogo alma a alma. Por isso, quem o desejar pode colocar aqui feedbacks da leitura do livro e/ou partilhar experiências e sabedorias do luto. Deixem o vosso comentário no final das mensagens publicadas ou enviem as vossas opiniões e relatos para zezabijoias@gmail.com.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Morrer em suaves prestações
Durante anos e anos não pensamos na velhice, sendo que velhos para nós são aqueles que têm mais de 40 anos. Por essa altura acreditamos que se algum dia lá chegarmos, à velhice bem entendido, vamos lidar com ela sem qualquer problema, afinal que diferença faz ter mais ou menos rugas na cara?
Mas no dia em que nos sentimos a perder uma qualquer capacidade, às vezes tão insignificante como não ver as letras pequenas dos rótulos, no dia em que nos dizem que começa a ser arriscado ter filhos, ou quando numa conversa percebemos que não é provável que estejamos vivos na data que acabámos de referir, aí como que vemos a areia a escorregar da ampulheta a uma velocidade assustadora. Depois afastamos o pensamento e entregamo-nos de novo ao trabalho, à família e aos amigos, e a felicidade de cada momento devolve-nos a certeza da eternidade.
E percebemos como o terror deve estar em morrer sem ter vivido, e não na morte depois de uma vida plena. Só a vida intensa nos resgata do medo da morte, que por sua vez nos mata em suaves prestações. E é por isso que dar sentido ao que fazemos, empenhando-nos num trabalho gratificante, criar relações de afecto em que damos e recebemos, e investir no envelhecimento activo, como agora lhe chamam, é a única forma de assegurar um presente e futuro feliz.
(…)
(Isabel Stilwell, in Destak)
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Luto(s)
«Há muitos tipos de perda, mas a perda principal é a morte. Quanto mais fortes forem os laços com alguém maior a dor e o luto, que pode considerar-se o outro lado do amor. O luto, excepto quando não houve o trabalho sadio do luto e, assim, se tornou patológico, não é, pois, uma doença, mas tão-só a expressão da dor pela morte de alguém significativo.
Trata-se de uma dor que afecta as múltiplas dimensões do ser: física, psíquica, espiritual, social, sendo, por isso, a reacção à perda igualmente variada: choque, negação, tristeza, depressão, culpabilização, raiva, ansiedade, desinteresse pela vida quotidiana, fadiga, desamparo, com expressões físicas, como perturbações do sono, problemas gástricos, sensação de vazio físico e psíquico...
Há vários tipos de luto. Pode ser antecipado: face à perda iminente de alguém. Há o luto caracterizado como ambíguo: pense-se no caso da perda por ocasião de um rapto e se ignora se a pessoa está viva ou morta ou no caso de se viver em presença de uma pessoa com Alzheimer: ela ainda está viva e já está "morta". Há lutos mais complicados, porque não são ou podem não ser reconhecidos: pense-se no caso dos homossexuais, que perdem o/a companheiro/a, ou dos que perdem o/a "amante". Há lutos retardados: não foram feitos no devido tempo, e lutos crónicos: as pessoas nunca mais enterram os seus mortos e as energias ficam todas fixadas no passado, instalando-se a incapacidade de reintegração na sociedade e reinvestimento na vida que continua. Há lutos encobertos: o luto não foi elaborado em termos sadios e manifesta-se de modo mascarado, por exemplo, numa doença pela qual, inconscientemente, se quer chamar a atenção. Para a morte de um filho nem há nome: quem perde o pai ou a mãe fica órfão, o viúvo ou a viúva perderam a mulher ou o marido; mas que nome se dá ao pai ou à mãe que perderam um/a filho/a?
No luto, elabora-se a dor e aprende-se a pensar sem culpa sobre a perda, a exprimir sentimentos e a partilhá-los. É uma resposta física, emocional, cognitiva, social e espiritual a uma perda significativa.
O que se pretende é o caminho da aceitação da realidade – superar a negação, aceitar a morte como morte. Mesmo que possa haver alucinações, é preciso compreender e aceitar que a morte é morte e que o morto nunca mais regressa a este mundo. Por outro lado, dar expressão aos sentimentos e partilhá-los: dar nome ao que se sente. Os sentimentos não são morais, lembra o especialista José Carlos Bermejo.
Outro objectivo: adaptar-se ao ambiente em que o defunto já não está, o que implica a capacidade de, com o tempo, desmontar os lugares e as coisas do morto: é preciso fazer as pazes com os espaços do outro definitivamente ausente, e compreender que é necessário investir noutras realidades – investir energia emotiva noutras tarefas e relações. Pode-se de novo viajar, sorrir, viver a vida.
O caso das crianças é especial. Não se deve mentir, dizendo, por exemplo, que a pessoa querida foi viajar, pois isso significaria que a abandonou, mas deve-se perguntar pelas suas preocupações, fomentar o diálogo e a recordação, ouvi-las, permitir a participação em rituais, explicando e dirigindo-se expressamente a elas. Dizer claramente que se não compreende. Apresentar a Natureza, onde também se morre, como comparação.
O luto é um processo, que pode durar 6 meses e pode ir até 1-2 anos. Os rituais – velório, enterro, cremação – têm um papel decisivo. A religião pode ser uma ajuda fundamental, na medida em que vem em auxílio com a fé no Deus da Vida contra a morte.
E aí estão as pessoas, com a capacidade de acompanhar a pessoa enlutada, sabendo ouvi-la ou estar em silêncio, indo ao encontro das suas necessidades, deixando-a falar e chorar.»
(P. Anselmo Borges, in Diário de Notícias)
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Comemorando os mortos
O dia 2 de Novembro é uma data em que crentes e não crentes recordam os seus entes queridos já falecidos. É comum ir ao cemitério, levar flores, acender velas, fazer memória dos que morreram.
No entanto, como escreve Francesca Pica:
«Na nossa cultura ocidental, a morte é, hoje como ontem, um tabu, um assunto a evitar ou a banir. Precisamente nas partes mais avançadas, mais distantes da naturalidade da vida, nos países mais evoluídos, onde há maior bem-estar, onde a concorrência torna tudo mais rápido, onde se passa a vida a correr atrás do efémero, exactamente aqui, a ideia do fim, da separação extrema, que acontecerá nalgum instante indefinido, é fonte de medos profundos, inaceitáveis, por vezes quase paralisantes.
Então, por que razão a visita ao cemitério é uma ocasião que dificilmente deixamos de cumprir?
A morte é um medo ancestral. Sendo assim, porque é que visitamos a casa dos mortos?
Visitamo-la para falar com eles. Vamos às suas sepulturas não só para recordar o passado, mas também para lhes apresentar, a eles que já não estão connosco, o nosso presente. Pedimos-lhes conselhos e conforto para as nossas escolhas de vida, especialmente quando são muito importantes ou quando estamos em dúvida.
Pode parecer insanidade, mas todos nós acreditamos que os mortos não nos deixam. Eles estão mais presentes do que os vivos, são guias que moldam as nossas acções, mesmo quando não nos damos conta.
Sentir perto de nós aqueles que partiram não significa permanecer na dor da perda. Pelo contrário, ao lembrarmo-nos das pessoas que estiveram junto de nós e que amámos, redefinimos a relação que tínhamos com elas. Criamos uma nova relação, não obstante reconhecermos o facto da despedida.
(…)
A pessoa falecida lembra-nos quem somos e de onde viemos, e dá sentido ao nosso presente; torna-se figura interior, luz na nossa alma. De ausência externa, o falecido transforma-se em presença interna.
(…)
Rezamos para aceitar a sua partida e aceitamos porque sabemos que os mortos se convertem, para nós, em sinal de bênção. É a nossa forma de não morrer aos poucos na morte daqueles que amamos e de abraçar aqueles que já não se encontram neste mundo, ainda que sem poder tocá-los.»
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