«A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tão semelhante ao pânico, que têm de ser inventadas maneiras de se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que uma pessoa, se alguma vez se entregar totalmente à dor, será devastada – como que por um maremoto enorme – para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez» (Sanders).
O tempo acaba por ser o maior aliado para ultrapassar a inolvidável perda, permitindo uma recuperação lenta e gradual. Porém, o sobrevivente tem também um papel activo no processo de luto, tendo de efectuar determinadas tarefas de forma a "deixar ir" o ente perdido e seguir em frente com a sua vida. Quando estas tarefas não são realizadas, acaba por se passar a ténue e imprecisa linha que separa o luto normal do luto patológico. Neste último, verifica-se que a severidade dos sintomas do luto, característica de uma fase inicial que se segue à perda, acaba por se prolongar por um período de tempo superior ao habitual.
Para além de ser um processo inevitável, pois todas as pessoas têm de o realizar a fim de se adaptarem à perda, o luto acaba por se repercutir nos vários indivíduos que rodeiam o sobrevivente, mesmo aqueles que não conheciam a pessoa falecida, e principalmente os membros familiares que passam por um mesmo processo, mas nunca de uma forma igual.
O afastamento no momento da morte (as pessoas antigamente morriam em casa e agora, maioritariamente, morrem nos hospitais ou em lares de terceira idade), juntamente com o menor apoio da comunidade numa sociedade cada vez mais individualista, são factores sociais que dificultam enormemente o processo de luto.
O que se sente, pensa e faz face à perda de um ente querido?
Os sentimentos mais comuns no processo de luto são:
* Tristeza: O sentimento mais comummente encontrado no enlutado, muitas vezes manifestando-se através do choro;
* Raiva: Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando na raiz de muitos problemas no processo de sofrimento após a perda. A raiva advém de duas fontes: da sensação de frustração por não haver nada que se pudesse fazer para prevenir a morte e de um tipo de experiência regressiva que ocorre após a perda de alguém próximo (semelhante ao que acontece quando uma criança se perde da mãe e no reencontro a pontapeia e se mostra zangada em vez de se mostrar feliz e ter uma reacção de amor por vê-la, devido à ansiedade e ao pânico sentidos pela criança antes de a mãe a encontrar), em que a pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva que acompanha estes sentimentos de ansiedade.
Formas ineficazes de lidar com a raiva são deslocá-la ou direccioná-la erradamente para outras pessoas, culpabilizando-as pela morte do ente querido, ou virá-la contra o próprio, podendo, no extremo, desenvolver comportamentos suicidas;
* Culpa e autocensura: Normalmente, e de modo particular no início do processo de luto, há um sentimento de culpa por não se ter sido suficientemente bondoso, por não ter levado a pessoa mais cedo para o hospital, etc.
Na maior parte das vezes, a culpa é irracional e irá desaparecer através do teste com a realidade;
* Ansiedade: Pode variar de uma ligeira sensação de insegurança a um forte ataque de pânico e quanto mais intensa e persistente for a ansiedade, mais sugere uma reacção de sofrimento patológica. Surge de duas fontes: do sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele próprio sozinho e de uma sensação aumentada da consciência da mortalidade do próprio;
* Solidão: Sentimento frequentemente expressado pelos sobreviventes, particularmente aqueles que perderam os seus cônjuges e que estavam habituados a uma relação próxima no dia-a-dia;
* Fadiga: Pode, por vezes, ser experimentada como apatia ou indiferença. Um elevado nível de fadiga pode ser surpreendente e angustiante para uma pessoa que é normalmente muito activa;
* Desamparo: Está frequentemente presente na fase inicial da perda;
* Choque: Ocorre mais frequentemente no caso de morte inesperada, mas também pode existir em casos cuja morte era previsível;
* Anseio: Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de volta, é uma resposta normal à perda; quando diminui, pode ser um sinal de que o sofrimento está a chegar ao fim;
* Emancipação: A libertação pode ser um sentimento positivo após a perda; por exemplo, no caso de uma jovem que perde o seu pai que era um verdadeiro tirano e a oprimia por completo;
* Alívio: É comum, principalmente se a pessoa querida sofria de doença prolongada ou dolorosa; contudo, um sentimento de culpa acompanha normalmente esta sensação de alívio;
* Torpor: Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a perda, sentem-se entorpecidas; é habitual que ocorra no início do processo de sofrimento, logo após tomar conhecimento da morte; pode ser uma reacção saudável bloquear inicialmente as sensações como uma espécie de defesa contra o que de outra forma seria uma dor esmagadora e insuportável.
Sensações físicas geralmente sentidas após a perda:
– Vazio no estômago
– Aperto no peito
– Nó na garganta
– Hipersensibilidade ao barulho
– Sensação de despersonalização (nada parecer real, incluindo o próprio)
– Falta de fôlego, sensação de falta de ar
– Fraqueza muscular
– Falta de energia
– Boca seca
Cognições ou pensamentos habituais após a perda:
▪ Descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a notícia)
▪ Confusão (pensamento confuso, não conseguindo ordenar os pensamentos; dificuldade de concentração ou esquecimento de coisas)
▪ Preocupação (obsessão com pensamentos acerca do falecido)
▪ Sensação de presença (contraparte cognitiva do sentimento de anseio)
▪ Alucinações (visuais e auditivas; são uma experiência frequente nos enlutados; são normalmente experiências ilusórias passageiras, que ocorrem, por norma, após poucas semanas da perda e não costumam provocar uma experiência de sofrimento mais complicada ou difícil)
Comportamentos usualmente manifestados após a perda:
Distúrbios do sono (insónias)
Alterações do apetite (normalmente há uma redução, mas também pode haver um aumento do apetite)
Comportamentos de distracção ("andar aéreo")
Isolamento social
Sonhos com a pessoa falecida
Evitar lembranças da pessoa falecida
Procurar e chamar pelo ente perdido
Suspirar
Hiperactividade, agitação
Chorar
Visitar sítios ou transportar consigo objectos que lembrem a pessoa perdida
Guardar objectos que pertenciam à pessoa falecida
As 4 tarefas essenciais do processo de luto
Após a perda de alguém que nos é querido, existe uma série de tarefas de luto que têm de ser concretizadas para que se restabeleça o equilíbrio e para o processo de luto ficar completo. Desta forma, a adaptação à perda envolve quatro tarefas básicas:
1. Aceitar a realidade da perda
2. Trabalhar a dor advinda da perda
3. Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
4. Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida
É essencial que o enlutado efectue estas tarefas antes de o processo de luto poder ser completado. Uma vez que o luto é um processo e não um estado, estas tarefas requerem esforço e, tal como uma doença pode não ficar totalmente curada, também o luto pode ficar incompleto em algumas pessoas.
1. Aceitar a realidade da perda
Quando alguém morre, mesmo sendo uma morte previsível, há sempre um sentimento de que tal não aconteceu. Desta forma, a primeira tarefa do sofrimento é apercebermo-nos da realidade de que a pessoa morreu e não irá voltar. O comportamento de busca relaciona-se directamente com a realização desta tarefa, consistindo, por exemplo, em chamar pela pessoa perdida ou enganar-se na identificação de pessoas, confundindo-as com a pessoa falecida.
O permanecer nesta tarefa pode dever-se a não acreditar na perda através de um determinado tipo de negação:
- Factos da perda;
- Significado da perda;
- Irreversibilidade da perda.
Negar os factos da perda pode variar em grau desde uma ligeira distorção até um delírio em larga escala. Um exemplo bizarro de negação através de delírio é a raridade dos casos em que o enlutado mantém o corpo do falecido em casa durante um determinado número de dias, antes de notificar alguém acerca da morte. Estas pessoas são, na grande maioria, psicóticas ou sofrem de excentricidade ou isolamento. O que acontece mais frequentemente é a pessoa passar por uma "mumificação", isto é, reter os bens materiais do falecido e mantê-los tal como estavam para quando o falecido "regressar".
Outra forma de as pessoas se protegerem da realidade é negarem o significado da perda, permitindo que a perda aparente ser menos significativa do que na realidade foi. Exemplos comuns são afirmações como "Ele não era um bom pai" ou "Não éramos assim tão chegados" e deitar os pertences que lembram o falecido fora, actuando de forma oposta à mumificação, sendo a intenção minimizar a perda. O esquecimento selectivo é outra forma de negar a realidade da perda, sendo o esquecimento de bons momentos ou da cara do falecido alguns exemplos.
Há pessoas que impedem a finalização desta tarefa negando que a morte é irreversível. Uma estratégia utilizada para negar a finalidade da morte é o espiritismo. A esperança de reunião com a pessoa morta é o sentimento normal, principalmente nos primeiros dias e semanas após a perda.
Chegar a uma aceitação da perda leva tempo, pois envolve não só uma aceitação intelectual, mas também emocional, sendo esta última mais morosa. A crença e a descrença alternam enquanto se permanece nesta tarefa. Apesar de levar inevitavelmente tempo, os rituais tradicionais, como o funeral, ajudam muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.
2. Trabalhar a dor da perda
Muitas pessoas experimentam dor física, bem como dor emocional e comportamental, associadas à perda. Uma vez que a pessoa em luto tem de passar pela dor causada pela perda, de modo a fazer o trabalho do sofrimento, então tudo o que permitir ao enlutado evitar ou suprimir essa dor irá muito provavelmente prolongar o processo de luto.
A negação desta segunda tarefa, a de trabalhar através da dor, é a de não sentir. As pessoas podem boicotar esta tarefa da várias maneiras, sendo a mais comum cortar com os sentimentos e negar a dor que está presente. Outras formas possíveis são procedimentos para parar o pensamento, idealizar o falecido, evitar coisas que lembrem o falecido e utilizar álcool ou estupefacientes.
Certas pessoas não compreendem a necessidade de experimentarem a dor do sofrimento e tentam a cura geográfica, ou seja, viajam de sítio para sítio, tentando encontrar algum alívio das suas emoções, em vez de se permitirem satisfazer a dor, senti-la e saberem que um dia ela passará.
Mais cedo ou mais tarde, a maioria dos indivíduos que evita o sofrimento consciente, acaba por entrar em colapso, normalmente sob alguma forma de depressão.
3. Ajustar-se a um ambiente em que o falecido está ausente
Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados para diferentes pessoas, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida e os vários papéis que ela desempenhava. Por exemplo, para muitas viúvas, o tempo que leva a aperceberem-se de como é viver sem os seus cônjuges é de cerca de três meses após a perda. Adicionalmente, em qualquer processo de luto, é muito raro saber-se exactamente o que é que se perdeu. No caso de uma viúva, a perda de um marido pode significar a perda de um parceiro sexual, um companheiro, um contabilista, um jardineiro, etc., dependendo dos papéis que eram usualmente desempenhados pelo seu marido.
A estratégia de coping para redefinir a perda de tal forma que pode recair para o benefício do sobrevivente é geralmente parte da conclusão bem sucedida desta tarefa.
Por exemplo, um homem que perde a sua mulher, que tinha como um dos vários papéis cuidar dos filhos, passa a resolver as questões relacionadas com os seus filhos, o que lhe dá um enorme prazer e percebe que isso não teria acontecido se a sua mulher não tivesse falecido.
Para as pessoas que definem a sua identidade através das relações e atenção que têm com os outros, o processo de luto significa não só a perda de um ente querido, mas também um sentimento de perda do self (o seu eu).
Outra área de ajustamento diz respeito ao sentido que a pessoa tem do mundo, pois a perda pode pôr em causa várias crenças e desafiar valores fundamentais.
Existem três áreas de ajustamento que se tem de fazer depois de perder alguém que nos é próximo: ajustamentos externos (funcionamento diário no mundo), ajustamentos internos (sentido do self) e ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo).
Ficar preso nesta tarefa significa que não há uma adaptação à perda. As pessoas trabalham contra elas mesmas através da promoção do seu próprio desamparo. Em acréscimo, não desenvolvem as competências de que precisam para lidar com a perda ou isolam-se do mundo e não enfrentam as exigências que as rodeiam.
4. Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida
Uma pessoa nunca perde as memórias de uma relação significativa. O processo de luto termina quando o enlutado deixar de ter uma necessidade de reactivar a representação do falecido com uma intensidade exagerada no quotidiano.
No caso da morte de um parceiro, a disposição para entrar em novas relações está directamente dependente de encontrar o espaço adequado para o cônjuge na vida psicológica do enlutado, um espaço que seja importante, mas que deixe espaço para outros.
Uma maneira de não completar esta tarefa é não amar. A pessoa agarra-se ao vínculo que tem com o passado, em vez de seguir em frente e formar novas vinculações. Algumas pessoas sentem a perda de uma forma tão dolorosa que fazem um pacto com elas mesmas de nunca mais amarem.
Para muitas pessoas, esta é a tarefa mais difícil de alcançar, ficando-se por vezes preso nela e só tomando consciência disso muito tempo depois, verificando que as suas vidas estagnaram após a perda. A sobre-idealização da pessoa falecida, um sentimento de deslealdade ou o medo catastrófico de uma nova perda podem bloquear a formação de novas vinculações e compromissos. Não obstante, esta tarefa pode ser alcançada e a pessoa percebe que pode voltar a amar sem deixar de amar a pessoa que perdeu.
Quando termina o processo de luto?
O processo de luto termina quando as tarefas supra descritas são completadas. Quanto à duração do processo, não existe uma resposta conclusiva, sendo impossível definir uma data precisa. No entanto, quando se perde uma relação próxima é muito improvável levar menos de um ano, e para muitos casos dois anos ou até mais não é muito tempo. O processo de sofrimento é muito variável, levando normalmente muito mais tempo do que aquele que as próprias pessoas esperam. Para além disso, cada nova estação, feriado ou férias e aniversário são prováveis de reevocar a perda. Assim, verifica-se que o luto não é um processo que progride de forma linear, podendo reaparecer para ser novamente trabalhado.
As regressões são inevitáveis num processo de luto. Até quando o enlutado já passou claramente para uma fase seguinte, é possível que regresse a padrões anteriores durante alturas de maior stress ou de extrema fadiga. Esta experiência é normalmente assustadora, pois a pessoa pode temer uma regressão permanente. Não obstante, a regressão passa, regra geral, assim que a situação desencadeante do stress é debelada ou quando a pessoa tiver descansado o suficiente.
Um sinal de uma reacção de sofrimento finalizada é quando a pessoa é capaz de pensar no falecido sem dor e quando consegue reinvestir as suas emoções na vida e nos vivos.
O processo de luto tem 5 fases:
1) Choque;
2) Consciência da perda;
3) Conservação – retirada;
4) Cura;
5) Renovação.
Cada uma das forças psicológicas que operam durante o processo de luto tem um correspondente biológico que determina o bem-estar físico do indivíduo.
Desta forma, na primeira fase, em que ocorre o choque, o enlutado movimenta-se num estado confuso de descrença e está num intenso estado de alarme. As emanações de adrenalina proporcionam a resistência física necessária para levar a cabo os requerimentos ritualizados que se seguem à perda. Esta fase proporciona também um torpor, ou seja, uma espécie de anestesia dos sentimentos, que protege o enlutado de experimentar a dor intensa que se vai seguir.
Na fase seguinte, há consciência da perda, ou seja, à medida que o torpor começa a desaparecer, o enlutado confronta-se com a perda que ocorreu. A novocaína (substância produzida pelo corpo) abateu e com ela o amortecimento temporário desvanece. À medida que este estado "dormente" face à perda desaparece, o enlutado tem de enfrentar a agonia física e mental sem o apoio adicional de um agente biológico de entorpecimento. A ansiedade de separação torna-se predominante enquanto o enlutado se prepara para o que sente como um esgotamento nervoso. Os sentimentos de perigo predominam e parece não haver um lugar seguro.
Na fase da conservação – retirada, a pessoa acaba por ter de se retirar para salvar a pouca energia que lhe resta após as tremendas emanações da fase anterior. Esta fase parece-se muito com a depressão, podendo por isso assustar o enlutado. Uma grande fadiga oprime o enlutado e ele sente dificuldade em executar até a mais simples das tarefas. Apesar de este período aparentar ser debilitante, ele também tem um valor libertador. Neste período de nojo (pesar), longe dos outros, o sobrevivente tem a oportunidade de fazer o trabalho de luto necessário, ou seja, a ruminação e a preocupação com o falecido. O enlutado percebe que não há quantidade suficiente de anseio ou concentração que possam trazer de volta a pessoa perdida.
Desta forma, ele começa a perceber que são necessárias novas abordagens, novas relações estabelecidas e uma nova vida construída. Numa análise final, o trabalho do luto depende da aceitação da perda e das consequentes mudanças na vida do enlutado. A força começa a regressar, alcançando-se um ponto de viragem. Este ponto de viragem é marcado pela decisão de seguir em frente e deixar ir o passado ou de permanecer no estado actual das coisas, comportando-se como se o falecido estivesse apenas temporariamente fora, podendo regressar um dia. Há uma terceira escolha que é raramente discutida como alternativa que é a decisão, normalmente inconsciente, de desistir, de morrer.
A quarta fase, a cura, representa esse ponto de viragem. O sobrevivente junta forças que lhe dão o ímpeto para seguir em frente com uma nova vida. Há uma mudança gradual de atitude e o ganho de controlo vem aos poucos. Do mesmo modo, o regresso da confiança acontece vagarosamente e de uma forma irregular. Esta fase é também um período de perdoar e esquecer. Perdoar-se a si mesmo pode ser uma tarefa difícil, ao mesmo tempo que a pessoa tenta lidar com a auto-eliminação da culpa, vergonha e raiva por ter sido deixada sozinha. Por outro lado, esquecer implica "deixar ir", não sugerindo que as memórias serão apagadas, mas sim que os pensamentos e sentimentos serão guardados apropriadamente no "coração" da pessoa. A motivação para seguir em frente, apesar de possíveis desilusões e vários inícios e paragens desencorajantes, faz a diferença.
Na última fase, a renovação, a dor diminui em grande parte. Obviamente, os aniversários e outras datas especiais irão continuar a ser difíceis, porém o enlutado não é a mesma pessoa que era anteriormente à perda. Um sentimento de competência, decorrente da aceitação de responsabilidade para o próprio, dá a força necessária para tentar novas coisas, encontrar novos amigos e começar a criar um estilo de vida em que as necessidades pessoais são satisfeitas. Esta fase é tão longa e árdua como as anteriores, talvez ainda mais morosa, e normalmente mais difícil.
Variantes de Luto Complicado
O termo “luto complicado” é usado quando determinados factores perturbam o processo de luto normal, factores esses que resultam de uma variedade de circunstâncias, desde problemas de personalidade pré-mórbidos até stresses situacionais. Estas variáveis fazem com que o luto seja mais severo e duradouro do que seria de esperar ou, pelo contrário, fazem com que o enlutado evite ou nem sequer reconheça a sua dor, o que impede que ela se possa resolver.
Sete variações ou síndromes de luto complicado:
1) Luto ausente;
2) Luto atrasado (o enlutado não demonstra reacções de luto durante semanas ou mais tempo, podendo transportar consigo uma dor não resolvida que pode emergir mais tarde como "reacções distorcidas" – por exemplo, hiperactividade sem um sentimento de perda, adquirir sintomas que pertenciam à última doença do falecido…);
3) Luto inibido;
4) Luto distorcido;
5) Luto conflituoso (aparece após a perda de uma relação altamente perturbada e ambivalente; habitualmente, surge uma complexidade de emoções após a morte, incluindo alívio, mas seguido de culpa e remorsos por saber que a relação nunca foi boa e não há oportunidade para a mudar);
6) Luto inesperado;
7) Luto crónico (a resposta de luto inicial é apropriada, mas a intensidade das reacções continuam sem diminuir; como resultado, a pessoa mantém-se num profundo e doloroso luto como forma de vida).
Apesar de existirem diversas variações de luto, os lutos atrasado, distorcido e crónico aparentam ser os principais a separar o luto complicado de um luto normal. A questão de o resultado de um processo de luto constituir um bom ou mau resultado não é consensual. Uma vez que os padrões de reacções normais de luto não são ainda claramente compreendidos, continua a ser difícil determinar critérios de reacções anormais.
O processo de luto dentro do sistema familiar
Em todas as culturas, as crenças acerca do luto, as práticas e os rituais facilitam a integração da morte e a transformação dos sobreviventes. Quando o sofrimento perante a perda de um pai, cônjuge, filho, irmão ou outro familiar importante não é reconhecido e cuidado, pode precipitar reacções fortes e nocivas noutras relações, desde um distanciamento marital e dissolução a uma substituição precipitada, relações extraconjugais e até incesto.
O acompanhamento que se dá a quem morre – muito mais do que o lugar – marca uma grande diferença. Muitas vezes, os familiares não sabem exactamente em que circunstâncias e a que horas ocorreu a morte, porque não estavam por perto. Não sabem como foi nem sabem se a pessoa morreu só ou acompanhada. Neste sentido, a morte das pessoas queridas é um buraco escuro porque morrem longe e muitos ficam afectados com esta morte, com esta perda, porque não sabem como é que foi.
Há um crescente distanciamento do momento crucial em que a pessoa querida morre, havendo um progressivo evitamento do confronto directo com essa realidade.
Desta forma, a integração da morte na vida torna-se mais complicada e difícil. Ariès reforça esta ideia quando coloca a seguinte pergunta: «Será que uma grande parte da patologia social de hoje não tem a sua fonte na evacuação da morte da vida quotidiana e na interdição do luto e do direito de chorar os seus mortos?»
O próprio afastamento das crianças do momento da morte e dos rituais que lhe seguem trás, ao contrário do que intuitivamente se pensa, mais problemas para a criança se adaptar à perda, sendo aconselhável que todos os familiares, sem excepção, participem neste processo, fomentando a partilha e coesão como forma de apoio, mas respeitando o espaço individual de cada um.
Do ponto de vista sistémico, a morte na família envolve múltiplas perdas: a perda da pessoa; a perda de papéis e de relações; a perda da unidade familiar intacta e a perda de esperanças e sonhos por tudo o que poderia ter sido.
Adaptação da família à perda
A morte coloca desafios adaptativos partilhados e mudanças nas definições que a família tem da sua identidade e objectivos. A capacidade de aceitar a perda está no cerne de todas as competências nos sistemas familiares saudáveis. Pelo contrário, as famílias muito disfuncionais demonstram os padrões menos adaptativos relativamente ao lidar com as inevitáveis perdas, agarrando-se conjuntamente à fantasia e à negação para ofuscar a realidade e para insistir na intemporalidade e perpetuação dos laços nunca desfeitos.
As perdas significativas ou traumáticas podem nunca ser totalmente resolvidas. Em acréscimo, a adaptação não é equivalente a uma resolução no sentido de ultrapassar completamente e de uma vez por todas a perda.
Há, no entanto, desafios adaptativos cruciais na família que, se não forem ultrapassados, deixam os familiares vulneráveis à disfunção e aumentam o risco da dissolução da família. Existem, assim, duas tarefas principais que tendem a promover a adaptação imediata e a longo prazo dos familiares e a fortalecer a família como uma unidade funcional: 1) A aceitação partilhada da realidade da morte e experiência partilhada da perda; e 2) A reorganização do sistema familiar e reinvestimento noutras relações e no seguimento da vida.
1. Aceitação partilhada da realidade da morte e experiência partilhada da perda
Todos os membros familiares, cada um à sua maneira, têm de se confrontar com a realidade de uma morte na família. É importante haver um contacto directo com a realidade da morte, particularmente a inclusão de membros familiares vulneráveis. Por exemplo, no caso de um familiar que está a morrer, devem ser-lhe feitas visitas sempre que possível e arranjar formas de incluir as crianças. As tentativas bem intencionadas de proteger as crianças ou os familiares mais vulneráveis do potencial transtorno da exposição à morte isolam-nos da experiência partilhada e arriscam-se a impedir o seu processo de sofrimento pela perda.
Os rituais funerários e as visitas à campa servem uma função vital de providenciar um confronto directo com a realidade da morte e a oportunidade para prestar as últimas considerações, para partilhar o sofrimento e para receber apoio na rede de suporte da comunidade dos sobreviventes. Partilhar a experiência da perda, de qualquer maneira que seja possível à família, é crucial para a adaptação bem sucedida.
A comunicação familiar é vital durante o percurso de adaptação à perda. Para além disso, um ambiente de confiança, respostas empáticas e tolerância a diversas reacções é essencial. A tolerância é, assim, necessária não só para diferentes respostas dentro da mesma família, como também para a probabilidade de os familiares terem diferentes estilos de coping (estratégias de confronto), estarem em diferentes fases uns dos outros e poderem ter experiências únicas no significado da relação perdida.
Os sentimentos intoleráveis ou inaceitáveis podem ser delegados e expressos de uma forma fragmentada pelos vários familiares. Como exemplificação, um pode transportar toda a zanga pela família, enquanto outro familiar está em contacto apenas com a tristeza, um demonstra alívio e outro está entorpecido. Nestes casos, torna-se necessário construir resiliência na família através da reparação da fragmentação e da promoção de uma rede mais coesa para o apoio e cura mútuos.
2. Reorganização do sistema familiar e reinvestimento noutras relações e no seguimento da vida
A morte de um familiar pode despedaçar o equilíbrio no seio da família e os padrões de interacção estabelecidos. O processo de recuperação envolve um realinhamento das relações e uma redistribuição dos papéis necessários para compensar a perda, amortecer os stresses transaccionais e seguir com a vida familiar para a frente.
As crianças podem ser mais prejudicadas pela incapacidade da família em proporcionar estrutura, estabilidade e cuidados de protecção do que pela perda em si. Desta forma, promover a coesão e uma reorganização flexível no sistema familiar é essencial para a re-estabilidade e resiliência. Para tal, é necessário tomar em conta uma série de variáveis que influenciam a adaptação da família à perda, entre as quais sobressaem:
w Situação da perda (morte repentina ou morte por doença prolongada, perda ambígua, morte violenta, suicídio);
w Rede familiar e social (coesão familiar e diferenciação dos familiares, flexibilidade do sistema familiar, comunicação aberta versus secretismo, disponibilidade de recursos da família alargada – sociais e económicos –, papel e funcionamentos anteriores no sistema familiar, relações conflituosas ou afastamentos na altura da morte);
w Contexto sócio-cultural da morte (crenças étnicas, religiosas e filosóficas);
w Contexto sociopolítico e histórico da perda;
w Altura da perda no ciclo de vida da família (extemporaneidade da perda, co-ocorrência de outras perdas, stresses ou mudanças do ciclo de vida, história de perdas traumáticas e luto não resolvido).
(Adaptado de Rita Melo, investigadora)