Às vezes questiono-me sobre o movimento das emoções: que traços dariam rosto ao que pela intimidade vai chegando à flor da pele e que tantas vezes se perde e extingue nesse caminho, pelos medos, inseguranças, preconceitos...
Como chegamos ao âmago do que em nós é impulso de vida e liberdade, do que nos ergue pela manhã e traz uma nova luminosidade ao já iluminado?
Como chegamos à musicalidade do que nos faz sorrir, do que nos faz sonhar, do que nos faz chorar e calar, do que nos faz sorrir com quem sorri, chorar com quem chora, de partilhar o que somos num abraço?
Talvez esse caminho seja desenhado pelo silêncio, pelo mesmo silêncio com que assistimos a uma dança, a uma peça de teatro, com que ouvimos uma música, contemplamos uma pintura ou ouvimos um poema. Pelo mesmo silêncio que um bailarino, um actor, um músico, um pintor, um escultor ou um poeta criam em si quando deixam que o Criador se encontre com a criatura nesse preciso instante.
Nesse silêncio os contornos do encontro vão ganhando luz, vão ganhando rosto, forma e movimento. Nesse silêncio, onde o quotidiano parece estranho e já conhecido, vai-se iluminando o que em nós é vida e graça, vai-se dando o espanto com a vida e graça do outro e do mundo.
E começa a nascer a certeza de que cada um de nós traz uma vida por dentro, que deseja libertar-se, sair de si, encontrar-se com a de outros e aí se desdobrar em passos de uma nova dança. (Luísa Sobral)
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