Morreu
O tocar do telefone não era por si sinal de alarme, não havia um horário para telefonemas e por isso nunca eram fora de horas. O nome no ecrã não despertava qualquer surpresa, era familiar, vinham rapidamente à memória vários motivos que justificavam a chamada. Retira o som estridente e atende numa saudação descontraída, do outro lado um tom de voz baixo indicia gravidade, lento, como que à procura das palavras certas, seguido de um silêncio…Morreu.
Não há preparação possível para a realidade da morte. Altera de tal forma a circunstância em que vivemos que, acredito, por mais que possamos contar com ela, antecipá-la, vivê-la até, será sempre surpreendente em tudo o que desperta em nós.
A mim, fascina-me o silêncio que se segue à notícia de uma morte. Um silêncio inevitável, cerimonioso. Por vezes, curto demais.
O desconforto que uma notícia destas provoca é de tal ordem, e o silêncio choca-nos de tal forma, que acabar com ele parece a única solução possível e aí precipitamo-nos para as palavras. Dizemos frases sem sentido para quem experimenta a dor: «Para a próxima corre melhor…» Empregamos expressões ocas aos ouvidos de quem sofre «Ele está melhor agora.» Fazemos perguntas para as quais não queremos ter reposta: «Como estás?»
O silêncio combina com a morte, é sinal de respeito. Evita palavras que possam diminuir a experiência do outro, recusa a pressa de remendar a dor com expressões que desvalorizem o seu sofrimento.
Ser sinal de esperança sem ferir o espaço do sofrimento do outro é um equilíbrio delicado, mas a que todos somos chamados (…).
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