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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Alguns mitos sobre o luto

(que dificultam muito uma compreensão clara a respeito de uma experiência tão humana e universal)

Luto e pesar são a mesma coisa.
É falso. O pesar é um complexo de pensamentos e sentimentos relacionados com a perda, que são vividos internamente. Por outras palavras, é o significado interno dado à experiência do luto.
O luto é o pesar público, a expressão partilhada desses pensamentos e sentimentos com as pessoas que nos cercam. Chorar, falar sobre a pessoa que morreu, celebrar datas especiais, são exemplos de luto. Ainda que esta expressão aconteça sem a presença de outras pessoas, pode ser considerada como uma forma saudável de luto.

A vivência da perda e do luto progride de acordo com fases previsíveis e sequenciadas.
É igualmente falso. Não é possível falar com precisão dessa sequência, embora exista a necessidade de compreender o processo e de tentar controlá-lo. A noção de fases pode, eventualmente, ajudar as pessoas a encontrarem sentido para a sua experiência de luto, mas é impossível substituir o medo e a sensação de falta de sentido, naturais num processo de luto, pelas falsas certezas de que os outros viveriam essa experiência passando exactamente pelas mesmas fases.
É frequente a pessoa enlutada encontrar outras, na mesma situação, que adoptaram um sistema de crenças rígido acerca do que deve ser experimentado ao longo do luto. Essas crenças são passíveis de afectar profundamente o processo individual natural. Podem encontrar-se respostas de desorganização, medo, culpa, mas também podem não se encontrar. É expectável que a regressão possa ou não ocorrer, ou sobrepor-se a qualquer outra das respostas. As emoções são susceptíveis de se seguirem umas às outras com intervalos curtos ou aparecerem em simultâneo duas ou mais emoções.
Cada um fica enlutado à sua maneira, não existindo formas melhores ou piores, nem, muito menos, a imposição de uma sequência rígida como norma do processo. O luto é uma experiência pessoal e única!

Devemos sair do luto em vez de o enfrentar.
Muitas vezes, espalha-se a ideia errada de que o objectivo de quem sofre uma perda é superar o luto o quanto antes.
A sociedade ocidental aconselha-nos (quando não nos obriga!) a abandonar prematuramente a experiência do luto. Por conseguinte, ou o enlutado vive o seu processo isoladamente, ou se força a abandoná-lo antes de o ter completado. Amigos e familiares, bem-intencionados mas desinformados, tentam fazer com que ele desenvolva autocontrolo, entendendo que essa é a resposta adequada, tornando muito difícil para o enlutado enfrentar esta mensagem poderosa, que encoraja a repressão emocional.
Existe, a nível cultural, uma grande impaciência relativamente ao pesar e ao desejo de sair rapidamente da experiência do luto. Contudo, esta mensagem do «Tens de ser forte! Não te deixes abater!», tendo como pano de fundo uma enorme pressão para voltar à vida normal, rotula de fracos e malucos os que continuam a expressar tristeza mais prolongadamente.
O luto passa, deste modo, a ser visto como algo a ser evitado e não como uma coisa que tem de ser vivida. A pessoa enlutada começa, na sequência disto, a apresentar um comportamento socialmente aceitável, que, porém, contraria as suas necessidades psicológicas. Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. O facto de receber pouco ou nenhum reconhecimento social da sua dor poderá levar a pessoa enlutada a recear que os seus pensamentos e sentimentos sejam anormais.
A reconciliação é fundamental no processo de luto. Ela designa a integração, por parte do enlutado, da nova realidade da vida sem a presença física da pessoa que morreu. A reconciliação permitirá que o enlutado tenha um senso de confiança e energia renovado, uma habilidade para reconhecer totalmente a realidade da morte, e a capacidade de se tornar envolvido novamente. E o mais importante: ele poderá reconhecer que, embora difíceis, a dor e o pesar são elementos necessários do viver. À medida que for ocorrendo a reconciliação, o enlutado poderá dar-se conta de que a vida será diferente sem a presença da pessoa que morreu. Mas para isso será essencial perceber que a reconciliação é um processo, não um acontecimento. Além da compreensão intelectual, há a compreensão emocional e espiritual. Ou seja: além de perceber na mente, vai perceber no coração: a pessoa amada morreu. A dor sentida vai deixar de ser omnipresente e aguda, para se transformar num sentimento de perda que pode ser reconhecido e dá vez a um significado e a um propósito renovados. O sentimento de perda não desaparece completamente, ele é atenuado e as crises de pesar, antes intensas, tornam-se menos frequentes e mais suaves. À medida que o enlutado começa a fazer novos envolvimentos, emerge a esperança de continuar a viver. É possível compreender que, apesar de a pessoa que morreu jamais vir a ser esquecida, a vida pode e deve continuar a ser vivida. Não se trata de “superar” o pesar. Quando o enlutado começa a mergulhar no trabalho do luto, irá reconciliar-se com ele.

A dor expressa em lágrimas é sinal de fraqueza.
 Que disparate! O pior que uma pessoa em processo de luto pode fazer é permitir que este julgamento a impeça de se expressar desta forma.
As lágrimas, que têm a potencialidade de provocar sentimentos de impotência nos familiares e amigos, são frequentemente associadas a fraqueza e a inadequação. Seja como for, o importante é não se deixar inibir e chorar o que for preciso.
Quem está preocupado com a pessoa enlutada pode, ao tentar evitar que ela chore, protegê-la – ou a si mesmo – da dor da perda. Ouvem-se frases como: «As lágrimas não o trarão de volta.» ou «Ele não gostaria de te ver chorar.». Não obstante, chorar é uma maneira natural de aliviar a tensão interna e, ao mesmo tempo, transmite a necessidade de conforto. Os investigadores acreditam que a supressão das lágrimas aumenta a possibilidade de distúrbios ligados ao stress.

Cada perda é única, porque cada pessoa é única e os laços que estabelecemos não têm par, o que condiciona as condições da dor pela perda daqueles que amamos. E há outros factores determinantes, como: as circunstâncias da morte, o sistema de apoio ao enlutado, as personalidades (incomparáveis) do enlutado e da pessoa que morreu, o contexto cultural, religioso e espiritual do enlutado, a envolvência dos rituais de luto, situações paralelas de crise ou stress na vida do enlutado…
Caetano Veloso disse: «Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.»

(adaptado de Maria Helena Pereira Franco)

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