Páginas

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Meditando o Tempo que Passa...

Não vivemos simplesmente. Também morremos. A existência tem estas duas dinâmicas sempre presentes. E morrer não é somente um acontecimento isolado no “fim” da vida. O que chamamos de “morte” não é senão o último momento do processo de morrer que acompanha a marcha da vida.

Aquilo a que chamamos “morte” como se fosse um acontecimento fechado em si próprio, é o último momento de uma dinâmica que acompanhou toda a nossa história. A morte, assim entendida, é o acontecimento pelo qual, finalmente, deixamos de morrer!

O morrer está dentro do viver, faz parte da dinâmica da existência, pertence ao seu mais íntimo e intocável. Estamos em permanente processo de morrer. Nascer é tornar-se moribundo.

Nós temos o privilégio de podermos olhar de frente a nossa morte desta maneira tão profundamente humana. Olhar de frente a morte não significa enfrentarmos com angústia o nosso fim, mas percebermos que dentro de nós existe um processo de morrer permanente que é como que o lado de dentro ou o lado avesso de viver. Temos o privilégio de podermos conhecer e assumir esta experiência da nossa debilidade, fraqueza, contingência, caducidade… numa palavra: mortalidade.

Então, a vida pede com urgência um Sentido, para se libertar do absurdo de morrer! Quando entendemos a morte desta maneira, como processo de morrer, percebemos também que morrer se torna um convite muito grande a ter um Sentido para viver. O Sentido de viver tem sempre a ver com experiências de abertura, liberdade e doação. Por isso, o Sentido de viver está quase irremediavelmente associado à descoberta de pessoas e relações…

Abrir-se e dar-se é a única maneira de uma pessoa não desaparecer morta em si própria. O morrer humano, como experiência de caducidade, é um apelo fortíssimo à libertação de si próprio, à abertura aos outros, à oblatividade e autodoação. Eis o privilégio e a responsabilidade de sermos pessoas! Não podemos deixar que o tempo e a natureza nos estejam permanentemente a fazer morrer em vão.
(…)


Não somos uma fatalidade biológica!
O morrer humano é muito mais que uma fatalidade biológica. É um processo de realização pessoal, uma dinâmica de limitação e carência que nos apela à abertura e à oblatividade.


Mas, mesmo assim… porque é que esta experiência pessoal de debilidade da vida, da caducidade da existência do tempo presente, da limitação e da dependência há-de ser um apelo de abertura e doação?! Porquê?!

Porque a consciência disto nos coloca cara-a-cara com a certeza absoluta de que o impulso da autoconservação redundará em fracasso! Estamos a morrer, não vale a pena guardarmo-nos! É um processo irreversível. O Ser Humano não se possui a si próprio pelo caminho da autoconservação. Por aqui, morre enterrado em si mesmo! Só nos realizamos na medida em que nos abrimos e nos damos.
(…)

(Rui Santigo, cssr)

Sem comentários:

Enviar um comentário