O que se diz aos pais de uma criança que morreu de cancro? Cancro! Essa maldita doença imprevisível e implacável que toma de assalto um corpo como se fosse sua propriedade.
Ensinaram-me algumas respostas. Outras procurei. Outras experimentei. Ter respostas é importante. Se existe algo tão persistente e agressivo quanto o cancro é a resistência do «porquê?». Muitas vezes não se verbaliza, mas está lá. Sente-se.
É, e será, tão real quanto a ausência daquela criança nos anos vindouros. Sim, porque a saudade que mais custa não é aquela imediata. Nem a frustração maior é a da perda. Angústia é quando a memória começa a desvanecer-se, a ficar confusa. Afinal, o amor também tem prazo?
«Porquê» é uma pergunta do presente e do futuro.
Sei o que poderia dizer aos pais dessa criança. Não sei é o que lhes dizer.
Poderia falar-lhes sobre a fragilidade e a finitude do corpo. E se eles me responderem que o corpo é feito para comunicar, para tocar, para gerar vida; que o corpo é o que dá o ser ao ser humano?
Poderia ainda falar-lhes sobre Deus e o cuidado que Ele dedica a cada pessoa. E se eles me perguntarem porque é que então Deus age de um modo tão arbitrário curando uns e não outros, fazendo sentir a Sua presença a uns e não a outros?
O que se diz, então, a quem tem o coração suspenso numa cruz? A um pai que beija a morte do filho ou à mãe que abraça o frio do túmulo. Porque é que sofremos deste modo? «Porquê» é uma pergunta para a qual não tenho resposta e que me confronta com o limite das palavras.
Nenhum céu deveria escutar o choro de um pai ou de uma mãe.
Mas o «porquê» não é apenas uma pergunta nossa. «Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mt 27, 46 e Mc 15, 34). Vários teólogos dizem ser o cumprimento do Slm 22, 2. Não digo o contrário. Mas sabe-me a pouco.
«Porquê?»… «Porque me abandonaste»… é a pergunta que une Cristo a todo o ser humano.
Para o sofrimento de um pai ou de uma mãe não tenho respostas definitivas. Existe, todavia, uma pergunta, ou melhor, uma perplexidade que nos une. E talvez seja essa a minha resposta… a da em-patia, a da com-paixão, a do respeito por quem sofre.
Assim como estou certo da em-patia, da com-paixão de Cristo: um homem que verdadeiramente sofreu a solidão e o desespero de ver o coração da sua mãe suspenso na sua cruz. E, por isso, as poucas palavras que tenho para dizer envolvem sempre Cristo. Não sei o porquê do sofrimento. Sei, isso sim, onde está a chave de leitura.
Tenho muitas perguntas a fazer a Deus quando o encontrar face-a-face. Esta é certamente uma delas. «Porquê?».
(Tiago Freitas)
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