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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um filme com interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte.


Amar, Beber e Cantar
Título original: Aimer, boire et chanter
De: Alain Resnais
Com: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol
Género: Comédia
Outros dados: FRA, 2014, Cores, 108 min.
No condado de Yorkshire, Inglaterra, três casais são abalados pela triste notícia de que George Riley, um amigo em comum, sofre de uma doença terminal e que lhe restam seis meses de vida. De forma a aliviar a dor de George e proporcionar-lhe alguma alegria nos últimos meses, os seis decidem convidá-lo para se juntar ao seu grupo de teatro amador. O que ninguém esperava era que aquela aproximação fizesse vir ao de cima muitas histórias do passado que iriam alterar a dinâmica entre cada casal. E as coisas complicam-se quando George – que, no filme, nunca chega a ser visto ou ouvido – resolve fazer uma viagem a Tenerife, Espanha. Cada uma das mulheres, determinada a marcar a diferença na vida dele, quer acompanhá-lo, deixando os seus respectivos maridos em total perplexidade…



Foi o último trabalho de Alain Resnais, tornado público pouco tempo antes da sua morte.



Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido

Amar, Beber e Cantar surpreende-nos a cada passo e deixa-nos com permanentes interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte. É, mais uma vez, um grande filme e é bom que Resnais tenha terminado assim a sua carreira de mais de 70 anos.



O filme conduz-nos a um grupo de actores amadores que ensaia uma peça, mas depressa percebemos que o teatro em curso é apenas um pretexto para nos contar a vida das personagens, cujas estórias sentimentais se entrecruzam a cada instante. A certa altura, não sabemos o que é real e o que é ficção, num jogo sem fim em que Resnais é mestre.

George, um dos amigos, recebe a notícia de que tem uma doença fatal e que lhe restam apenas seis meses de vida. Este facto altera a vida de todos e passa a ser o motivo principal das sucessivas motivações e comportamentos dos outros. George, que nunca chegamos a visualizar (num truque de Resnais para estimular a nossa imaginação), exerce um fascínio sobre todas as mulheres, que o disputam até ao fim, perante o embaraço dos homens a quem estão ligadas oficialmente.

O realizador estabelece um permanente paralelo entre o palco e a vida real. Não entramos no interior das casas porque tudo se passa cá fora, como se os protagonistas estivessem a “representar” a sua intimidade. As paisagens bucólicas alternam com cenários e animação teatral, numa tentativa permanente de criar uma distanciação. O diálogo, muito vivo e irónico, alterna com monólogos de algumas personagens, que falam sozinhas, em grande plano, diante de um fundo abstracto.

O tempo, um dos temas sempre presentes em Alain Resnais, aparece de novo: na obsessão com os relógios de Colin, nos poucos meses que restam a George, nos atrasos da encenadora e no passado amoroso das mulheres, revelado aos poucos com o desenrolar da acção.

A representação é sublime — com destaque para Sabine Azéma, a viúva de Resnais — porque os actores são dirigidos com mestria e, num filme que parece, à partida, um simples divertimento do realizador para connosco, emergem subtilmente os grandes temas dos casais de meia-idade: o envelhecimento e a proximidade da morte, o declínio da vida sexual, a traição e o ciúme, a perplexidade face ao comportamento dos filhos e a verdade ou a mentira sobre a intimidade.

Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido.

Só se canta no fim, mas saímos do filme com as imagens na cabeça e a música da nossa própria vida em pano de fundo.   


Texto de DANIEL SAMPAIO, em Público, 2.11.2014

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