Amar, Beber e Cantar
Título original: Aimer, boire et chanter
De: Alain Resnais
Com: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol
Género: Comédia
Outros dados: FRA, 2014, Cores, 108 min.
No condado de Yorkshire, Inglaterra, três casais são
abalados pela triste notícia de que George Riley, um amigo em comum, sofre de
uma doença terminal e que lhe restam seis meses de vida. De forma a aliviar a
dor de George e proporcionar-lhe alguma alegria nos últimos meses, os seis
decidem convidá-lo para se juntar ao seu grupo de teatro amador. O que ninguém
esperava era que aquela aproximação fizesse vir ao de cima muitas histórias do
passado que iriam alterar a dinâmica entre cada casal. E as coisas complicam-se
quando George – que, no filme, nunca chega a ser visto ou ouvido – resolve
fazer uma viagem a Tenerife, Espanha. Cada uma das mulheres, determinada a
marcar a diferença na vida dele, quer acompanhá-lo, deixando os seus
respectivos maridos em total perplexidade…
Foi o último trabalho de Alain Resnais, tornado público
pouco tempo antes da sua morte.
Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de
“cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos
levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido
Amar, Beber e Cantar surpreende-nos a cada passo e deixa-nos
com permanentes interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o
envelhecimento e a morte. É, mais uma vez, um grande filme e é bom que Resnais
tenha terminado assim a sua carreira de mais de 70 anos.
O filme conduz-nos a um grupo de actores amadores que ensaia
uma peça, mas depressa percebemos que o teatro em curso é apenas um pretexto
para nos contar a vida das personagens, cujas estórias sentimentais se
entrecruzam a cada instante. A certa altura, não sabemos o que é real e o que é
ficção, num jogo sem fim em que Resnais é mestre.
George, um dos amigos, recebe a notícia de que tem uma
doença fatal e que lhe restam apenas seis meses de vida. Este facto altera a
vida de todos e passa a ser o motivo principal das sucessivas motivações e
comportamentos dos outros. George, que nunca chegamos a visualizar (num truque
de Resnais para estimular a nossa imaginação), exerce um fascínio sobre todas
as mulheres, que o disputam até ao fim, perante o embaraço dos homens a quem
estão ligadas oficialmente.
O realizador estabelece um permanente paralelo entre o palco
e a vida real. Não entramos no interior das casas porque tudo se passa cá fora,
como se os protagonistas estivessem a “representar” a sua intimidade. As
paisagens bucólicas alternam com cenários e animação teatral, numa tentativa
permanente de criar uma distanciação. O diálogo, muito vivo e irónico, alterna
com monólogos de algumas personagens, que falam sozinhas, em grande plano,
diante de um fundo abstracto.
O tempo, um dos temas sempre presentes em Alain Resnais,
aparece de novo: na obsessão com os relógios de Colin, nos poucos meses que
restam a George, nos atrasos da encenadora e no passado amoroso das mulheres,
revelado aos poucos com o desenrolar da acção.
A representação é sublime — com destaque para Sabine Azéma,
a viúva de Resnais — porque os actores são dirigidos com mestria e, num filme
que parece, à partida, um simples divertimento do realizador para connosco,
emergem subtilmente os grandes temas dos casais de meia-idade: o envelhecimento
e a proximidade da morte, o declínio da vida sexual, a traição e o ciúme, a
perplexidade face ao comportamento dos filhos e a verdade ou a mentira sobre a
intimidade.
Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de
“cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos
levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido.
Só se canta no fim, mas saímos do filme com as imagens na
cabeça e a música da nossa própria vida em pano de fundo.
Texto de DANIEL SAMPAIO, em Público, 2.11.2014



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