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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Acreditas na vida depois do parto?

No ventre de uma mulher grávida, encontravam-se dois bebés.
Um deles pergunta ao outro:
- Acreditas na vida depois do parto?
- Claro que sim. Deve haver algo depois do parto. Talvez estejamos aqui, porque precisamos de nos preparar, para o que seremos mais tarde.
- Que tolice. Não há vida depois do parto! Como seria essa vida?
- Não sei. Seguramente haverá mais luz que aqui. Talvez caminhemos, com os nossos próprios pés, e nos alimentemos, pela boca.
- Isso é absurdo. Caminhar é impossível. E comer pela boca? Isso é ridículo. Só pelo cordão umbilical. Eu digo-te uma coisa: a vida depois do parto está fora de questão. O cordão umbilical é demasiado curto.
- Pois eu creio que deve haver algo mais. E talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos acostumados a ter aqui.
- Mas nunca voltou ninguém, depois do parto, para nos dizer nada! Não. O parto é o fim da vida. E, no final de contas, a vida não é mais que uma angustiosa existência na obscuridade que não leva a nada.
- Bem, eu não sei exatamente como será depois do parto, mas certamente que veremos a mamã e ela cuidará de nós.
- Mamã?! Tu acreditas na mamã? Onde pensas tu que ela está?
- Aonde? Em tudo, à nossa volta. Nela e através dela é que vivemos. Sem ela, este mundo não existiria. 
- Pois eu não creio. Nunca vi a mamã, portanto é lógico que não exista. 
- Bem, às vezes, quando estamos em silêncio, tu podes ouvi-la a cantar ou sentir como acaricia o nosso mundo. Sabes? Eu penso que há uma vida real que nos espera e que agora apenas nos estamos a preparar para ela…
José António Goñi

quinta-feira, 5 de março de 2015

Felizes os que acreditam e amam


"Uma vez, uma jovem estudante pediu-me para fazer um trabalho sobre o riso. Porquê? Queria entender porque é que a mãe, entrando na igreja para a celebração da missa de corpo presente da avó, ao deparar-se com o cadáver, começou a rir.

Diferença essencial entre o ser humano e os outros animais é o riso e o sorriso. Eles são manifestação da inteligência superior e de transcendência.

Perante o cadáver, seja ele de quem for, mas sobretudo de um ente próximo e querido, íntimo, há um choque de emoção e razão, sobrepondo-se a razão. De um modo ou outro, acabamos por nos rever no cadáver, a nossa posição futura está ali, desabando então, frente àquela figura coisificada, toda a vaidade e todo o ridículo da soberba e grandeza imaginada, que vão ser pó ou cinza. E aí está a tensão que obriga a transcender. Por outro lado, antes ainda, depois ou em concomitância, está aí a revolta: a minha mãe não foi nem é esta coisa cadavérica aí em frente. No limite do trágico, sobrevem o riso, clamando transcendência. É a explosão do conflito entre o intolerável do que se mostra e uma transcendência para que se aponta." 
()Anselmo Borges, em O riso e a transcendência, Diário de Notícias, 31 janeiro 2015)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um filme com interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte.


Amar, Beber e Cantar
Título original: Aimer, boire et chanter
De: Alain Resnais
Com: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol
Género: Comédia
Outros dados: FRA, 2014, Cores, 108 min.
No condado de Yorkshire, Inglaterra, três casais são abalados pela triste notícia de que George Riley, um amigo em comum, sofre de uma doença terminal e que lhe restam seis meses de vida. De forma a aliviar a dor de George e proporcionar-lhe alguma alegria nos últimos meses, os seis decidem convidá-lo para se juntar ao seu grupo de teatro amador. O que ninguém esperava era que aquela aproximação fizesse vir ao de cima muitas histórias do passado que iriam alterar a dinâmica entre cada casal. E as coisas complicam-se quando George – que, no filme, nunca chega a ser visto ou ouvido – resolve fazer uma viagem a Tenerife, Espanha. Cada uma das mulheres, determinada a marcar a diferença na vida dele, quer acompanhá-lo, deixando os seus respectivos maridos em total perplexidade…



Foi o último trabalho de Alain Resnais, tornado público pouco tempo antes da sua morte.



Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido

Amar, Beber e Cantar surpreende-nos a cada passo e deixa-nos com permanentes interrogações sobre a verdade, o sentido da vida, o envelhecimento e a morte. É, mais uma vez, um grande filme e é bom que Resnais tenha terminado assim a sua carreira de mais de 70 anos.



O filme conduz-nos a um grupo de actores amadores que ensaia uma peça, mas depressa percebemos que o teatro em curso é apenas um pretexto para nos contar a vida das personagens, cujas estórias sentimentais se entrecruzam a cada instante. A certa altura, não sabemos o que é real e o que é ficção, num jogo sem fim em que Resnais é mestre.

George, um dos amigos, recebe a notícia de que tem uma doença fatal e que lhe restam apenas seis meses de vida. Este facto altera a vida de todos e passa a ser o motivo principal das sucessivas motivações e comportamentos dos outros. George, que nunca chegamos a visualizar (num truque de Resnais para estimular a nossa imaginação), exerce um fascínio sobre todas as mulheres, que o disputam até ao fim, perante o embaraço dos homens a quem estão ligadas oficialmente.

O realizador estabelece um permanente paralelo entre o palco e a vida real. Não entramos no interior das casas porque tudo se passa cá fora, como se os protagonistas estivessem a “representar” a sua intimidade. As paisagens bucólicas alternam com cenários e animação teatral, numa tentativa permanente de criar uma distanciação. O diálogo, muito vivo e irónico, alterna com monólogos de algumas personagens, que falam sozinhas, em grande plano, diante de um fundo abstracto.

O tempo, um dos temas sempre presentes em Alain Resnais, aparece de novo: na obsessão com os relógios de Colin, nos poucos meses que restam a George, nos atrasos da encenadora e no passado amoroso das mulheres, revelado aos poucos com o desenrolar da acção.

A representação é sublime — com destaque para Sabine Azéma, a viúva de Resnais — porque os actores são dirigidos com mestria e, num filme que parece, à partida, um simples divertimento do realizador para connosco, emergem subtilmente os grandes temas dos casais de meia-idade: o envelhecimento e a proximidade da morte, o declínio da vida sexual, a traição e o ciúme, a perplexidade face ao comportamento dos filhos e a verdade ou a mentira sobre a intimidade.

Resnais constrói, em Amar, Beber e Cantar, uma espécie de “cine-teatro”, em que cinema e teatro se entrecruzam em cada instante para nos levar a uma profunda meditação sobre a vida e o seu sentido.

Só se canta no fim, mas saímos do filme com as imagens na cabeça e a música da nossa própria vida em pano de fundo.   


Texto de DANIEL SAMPAIO, em Público, 2.11.2014