Comemorando os mortos
O dia 2 de Novembro é uma data em que crentes e não crentes recordam os seus entes queridos já falecidos. É comum ir ao cemitério, levar flores, acender velas, fazer memória dos que morreram.
No entanto, como escreve Francesca Pica:
«Na nossa cultura ocidental, a morte é, hoje como ontem, um tabu, um assunto a evitar ou a banir. Precisamente nas partes mais avançadas, mais distantes da naturalidade da vida, nos países mais evoluídos, onde há maior bem-estar, onde a concorrência torna tudo mais rápido, onde se passa a vida a correr atrás do efémero, exactamente aqui, a ideia do fim, da separação extrema, que acontecerá nalgum instante indefinido, é fonte de medos profundos, inaceitáveis, por vezes quase paralisantes.
Então, por que razão a visita ao cemitério é uma ocasião que dificilmente deixamos de cumprir?
A morte é um medo ancestral. Sendo assim, porque é que visitamos a casa dos mortos?
Visitamo-la para falar com eles. Vamos às suas sepulturas não só para recordar o passado, mas também para lhes apresentar, a eles que já não estão connosco, o nosso presente. Pedimos-lhes conselhos e conforto para as nossas escolhas de vida, especialmente quando são muito importantes ou quando estamos em dúvida.
Pode parecer insanidade, mas todos nós acreditamos que os mortos não nos deixam. Eles estão mais presentes do que os vivos, são guias que moldam as nossas acções, mesmo quando não nos damos conta.
Sentir perto de nós aqueles que partiram não significa permanecer na dor da perda. Pelo contrário, ao lembrarmo-nos das pessoas que estiveram junto de nós e que amámos, redefinimos a relação que tínhamos com elas. Criamos uma nova relação, não obstante reconhecermos o facto da despedida.
(…)
A pessoa falecida lembra-nos quem somos e de onde viemos, e dá sentido ao nosso presente; torna-se figura interior, luz na nossa alma. De ausência externa, o falecido transforma-se em presença interna.
(…)
Rezamos para aceitar a sua partida e aceitamos porque sabemos que os mortos se convertem, para nós, em sinal de bênção. É a nossa forma de não morrer aos poucos na morte daqueles que amamos e de abraçar aqueles que já não se encontram neste mundo, ainda que sem poder tocá-los.»
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