Morrer em suaves prestações
Durante anos e anos não pensamos na velhice, sendo que velhos para nós são aqueles que têm mais de 40 anos. Por essa altura acreditamos que se algum dia lá chegarmos, à velhice bem entendido, vamos lidar com ela sem qualquer problema, afinal que diferença faz ter mais ou menos rugas na cara?
Mas no dia em que nos sentimos a perder uma qualquer capacidade, às vezes tão insignificante como não ver as letras pequenas dos rótulos, no dia em que nos dizem que começa a ser arriscado ter filhos, ou quando numa conversa percebemos que não é provável que estejamos vivos na data que acabámos de referir, aí como que vemos a areia a escorregar da ampulheta a uma velocidade assustadora. Depois afastamos o pensamento e entregamo-nos de novo ao trabalho, à família e aos amigos, e a felicidade de cada momento devolve-nos a certeza da eternidade.
E percebemos como o terror deve estar em morrer sem ter vivido, e não na morte depois de uma vida plena. Só a vida intensa nos resgata do medo da morte, que por sua vez nos mata em suaves prestações. E é por isso que dar sentido ao que fazemos, empenhando-nos num trabalho gratificante, criar relações de afecto em que damos e recebemos, e investir no envelhecimento activo, como agora lhe chamam, é a única forma de assegurar um presente e futuro feliz.
(…)
(Isabel Stilwell, in Destak)
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