Páginas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A vida depois de uma perda significativa

«O que acontece quando nós experimentamos uma perda? Quando somos abalroados pela natureza da vida, pelo seu fluxo e pela sua imposição? No momento da perda, uma parte do que nós reivindicamos como sendo a nossa vida, corpo, ou coisas desaparece. Nós sofremos com isso. Sentimo-nos feridos. Podemos sentir-nos diminuídos ou “menos do que éramos” antes da perda. Um turbilhão de sentimentos invade-nos o espírito como se tivéssemos sido arrastados por um tornado. Sentimos o chão a fugir-nos debaixo dos pés. Ficamos confusos, resignados, perdidos, à beira do desespero e tentamos a todo o custo encontrar um significado lógico para o sucedido. Procuramos, mas na grande maioria das vezes não encontramos. Forçamo-nos a perspectivar um caminho que faça sentido.
(…)

Cada pessoa responderá de acordo com a sua forma de ser, de ver o mundo e da capacidade que tem ou não para erguer-se acima da sua perda e perspectivar um caminho que volte a ter significado. Diferentes pessoas sentem de maneiras diferentes a perda. Contudo, as nossas vidas não são estáticas. A vida não pára depois de uma perda ou de um acontecimento catastrófico. E nós também não paramos de crescer e de nos desenvolver enquanto pessoas. Enquanto seres humanos temos em nós capacidade de nos organizarmos para compensar as nossas perdas e decepções e criar novos caminhos e habilidades face aos desafios.

Em geral, não estamos habituados a pensar desta forma. Pensamos: perda é perda. Pensando desta maneira sobre a perda, ou seja, ficar com a noção de que ficámos com menos, depende da forma como se mede a própria perda.
(…)

ACEITAÇÃO DA PERDA
Eu não pretendo transmitir a ideia de que a perda é em si mesma algo bom. Eu também sei o que é a perda, o que é chorar a perda de alguém querido, ficar destroçado com perdas profundas, físicas, emocionais e financeiras; conheço esse território muito bem. Com o tempo, porém, fui aceitando que as perdas são uma condição da vida, e que com o passar do tempo elas vão-se somando. Então, se é inevitável enfrentarmos algumas perdas ao longo da nossa vida, acredito que algumas devem ser choradas, sentidas e vividas tal como acontecem. Existe um tempo para tudo. E passado o tempo de chorar, ou reflectir sobre a perda, seja ela qual for, é tempo de olhar em frente. É tempo de não acrescentar mais sofrimento a essa mesma perda. É tempo de minimizar os acontecimentos que teve na nossa vida e consequente impacto emocional, e fazer coisas para nos restabelecermos, fortalecermos e perspectivarmos um caminho. Um novo caminho que nos faça voltar a ter alegria de viver.

O que nos pode empurrar na direcção de nos focarmos apenas nas nossas perdas, em vez de olhar para a totalidade das nossas vidas é a ideia de que nós devemos ter o controlo do que nos acontece. Se acreditamos que podemos controlar as nossas vidas, ficamos com raiva quando nos deparamos com a perda e passamos o tempo a olhar para trás numa tentativa de descobrir como tal coisa pode ter acontecido e o que deveria ter sido feito para o evitar. Adoptamos uma luta que pode ser inglória, visto que nos esforçamos por voltar exactamente para onde estávamos, em vez de descobrirmos o que está ainda para vir e para alcançarmos.

A vida não é estática, e como tal, irão sempre acontecer situações que fogem ao nosso controlo. Certamente essas situações, se forem negativas e originarem perda, geram igualmente angústia, decepção, tristeza, ressentimento, e outros sentimentos que nos fazem sentir mal. E isso é uma realidade; aceitá-la é uma condição para perspectivarmos um novo caminho.

Perante a perda e o infortúnio, ultrapassar a angústia gerada pelos acontecimentos é um objectivo importante. Para que o objectivo seja possível de alcançar é necessário libertar a mente e restaurar o equilíbrio emocional. A aceitação é um meio de alcançar a paz de espírito suficiente para perspectivar um caminho. Há que focar-nos no objectivo, pois o caminho faz-se caminhando.

(…)
No entanto, depois da derrocada pode existir esperança. O que escolhemos fazer e o modo como nos influenciamos e incentivamos a nós mesmos molda a nossa vida e isso tem efeitos profundos sobre nós. Cada um de nós influencia o curso da sua vida, mas não a controla na totalidade. As perdas acontecem. As oportunidades surgem. Nós respondemos a essas oportunidades, ou não. É aí que a nossa influência acontece: em resposta aos acontecimentos, o nosso controlo possível toma o seu lugar.

(…) deixando ir a ideia de que deveria ter evitado a perda de acontecer. Foi o que aconteceu. É um facto, é uma verdade, é uma realidade. Em seguida, cuidadosamente podemos abrir os nossos corações e tornar-se conscientes de que a nossa vida pode crescer e prosperar. Podemos tornar-nos mais do que fomos, independentemente da perda.»

(Miguel Lucas, in Psicologia Positiva)

Sem comentários:

Enviar um comentário