“A morte é uma máquina de arrependimentos?” (pág. 51)
Título: O Filho
Autor: Michel Rostain
Editor: Sextante Editora
Comentário de DIANA M.
FERREIRA | www.ruadebaixo.com
Michel Rostain é
encenador de Óperas, tendo dirigido, entre 1995 e 2008, o Teatro Nacional de
Quimper: Teatro da Cornualha. Estreia-se, agora, no meio literário com o
romance semi-biográfico, “O Filho” (Sextante, 2013).
Não é fácil avaliar um
livro sobre um tema tão insuportavelmente antinatural. Perder um filho é uma
daquelas possibilidades impensáveis, sendo muito mais cómodo acreditar que não
conheceremos essa realidade.
«Onde estou, a morte não
está, e onde ela está eu não estou. Então, porquê temê-la?» Esta reflexão de
Epicuro é uma das muitas que apresenta uma forma de estar perante a morte.
(Com
sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende compreender os dois temores que o
impediriam o homem de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da
morte. Para ele, a morte não existe enquanto o homem vive, e este não existe
mais quando ela sobrevém.)
No entanto, a morte pode
atingir-nos sem nos matar. É estar vivo e viver com a morte.
Em “O Filho”, a morte é
um forte paradoxo que obriga a olhar de frente para a vida. Seja através das
memórias que evocamos ao recordar o carácter de quem partiu, através da análise
detalhada e quase obsessiva dos ‘últimos momentos’ (do resultado entre as
escolhas que tomamos e as que desejaríamos ter tomado), seja através da louca e
incessante busca de um sentido nos detalhes mais ínfimos.
Apesar da temática pesada
e da profunda complexidade de sentimentos presentes na obra, trata-se de uma
narrativa surpreendentemente leve. Com o filho como narrador desta estória, é
até possível sorrir perante a sua visão daquilo que os pais procuram sobre o
que foi a sua vida.
«Viva a vida», evoca com
frequência este pai já sem filho. Por ser aquilo em que acredita – na vida, na
vontade de viver – este pai grita «Viva a vida». Aceitar a perda não será o
termo a aplicar neste caso, “acreditar” será mais eficaz. Este pai busca
vestígios do filho; busca pedaços da vida do filho que desconhecesse, algum
sinal de que ele queria (ou não) viver, de que a doença apenas existira porque
o corpo deixara de querer viver. Procurava sinais, recados, mensagens ocultas.
Sentidos. Procura um sentido no caos.
Com o desprendimento
humorístico típico da juventude em relação ao sentimentalismo familiar
reflectido no discurso, a descrição deste impiedoso processo de luto rejeita
cair num encadeamento de lugares comuns e constrói, com uma dose humor que tem
tanto de negro como doce, uma narrativa presa às íntimas tranças de memórias,
filosofias e crenças – detalhes que tornam a dor de cada um tão
intransmissivelmente sua. Assim, delicadamente esculpidos neste romance, estão
não só o relato de uma perda e uma reflexão sobre o que é estar vivo, como
também um dilema entre o ateísmo e o simbólico, tão próximo do sagrado.

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