Libertango
Tenho pedido à Irmã Morte que me ensine coisas importantes da Vida. Ela sabe-as quase todas. Por motivos diferentes, tenho-me encontrado com a Irmã Morte muitas vezes, até nos tornarmos amigos e confidentes. Para além de tudo o que acontece no mistério imenso daqueles que nos morrem, assombro diante do qual só a minha Fé na Esperança é capaz de articular palavras, fica sempre aquela espécie de sussurro mais prolongado, como uma demorada confidência que a Irmã Morte continua a segredar durante vários dias depois de alguém me morrer. Como se cada despedida tivesse inscrita uma lição que seria insensato não receber. De cada vez que alguém me morre, a Irmã Morte inscreve-me no corpo sabedorias novas da arte de viver, como recados do lado mais profundo da própria Vida dos quais ela é silenciosa e incompreendida portadora. Estes recados são tanto mais densos quanto mais para mim são amáveis aqueles que me morrem. É o Amor que dá tamanho à Morte, como é o Amor que dá tamanho à Vida.
É sempre um dos primeiros sussurros da Irmã Morte, uma sabedoria repetida, esta coisa de nos iludirmos com o tamanho do que temos, podemos e sabemos. No mais íntimo e real de nós mesmos, por baixo de todas as máscaras, existe um irremediável mistério de debilidade, fraqueza, finitude. Levantamos as muralhas espessas dos nossos egoísmos e defendemo-las com toda a agressividade necessária, mas estamos indefesos à brisa suave da inconstância que atravessa essas muralhas pelas mais impensáveis frestas. Somos um quebra-cabeças de debilidade e dependência. Não existimos sem pertencer. E não admitir isto é condenar-se.
Não vivemos sem amor, não há hipótese! É impossível uma criança aguentar-se sem amor. É impossível um velho aguentar-se sem amor. No meio, existe essa coisa às vezes terrível que é a adultez: um adulto pode aprender a viver sem amor. É um drama… O que a criança e o velho não podem, o adulto consegue aprender. É uma ilusão e uma falsa aprendizagem, porque não é senão cobrir-se com uma multidão de véus e rodopiar sobre si mesmo com eles, mas é dramaticamente possível. E entre ir para aqui e ir para ali, bulir de um lado e do outro, parece que está tudo bem. Até um dia… e outro… e outro, em que os véus caem e a solidão desmorona. E é terrível ter de viver entre os escombros de si mesmo.
Mas nada está acabado! Não há impossíveis para a Esperança e para a valentia de se dar de maneiras novas! Mas há coisas que poderíamos aprender com menos sofrimento.
A Irmã Morte encosta sempre o seu rosto ao meu para me dizer ao ouvido a minha radical pobreza. Ser dono é uma ilusão. A tentação de possuir achando que aí encontramos a nossa alegria e segurança é a mentira mais contada. E a mais acreditada. Mas somos donos de quê, afinal?! Dos outros, não somos, que, no limite, nos morrem… E, se os amamos de verdade, já os deixámos ficarem livres de nós mais cedo, já lhes demos espaço para eles serem eles mesmos, diferentes de nós e do que nós gostaríamos que eles fossem. Nada nos despossui mais eficazmente que o Amor verdadeiro, maduro e saudável.
E de nós mesmos e das nossas coisas, não somos mais que donos “q.b.”… tudo está nas nossas mãos por um certo prazo de administração, e mais vale usar o que temos para fazer amigos e dar largas à vida do que para fazer inimigos e engordar o coração. Na matriz mais natural do que somos, estamos feitos para o com-tacto, para o encontro, o toque. O órgão mais extenso do corpo humano é a pele, a vocação mais permanente do ser humano é tocar e ser tocado. Somos feitos de um maravilhoso empréstimo cósmico, dos átomos e moléculas que fazem parte desta evolutiva criação há milhões de anos, a mesma matéria das árvores, de todos os seres vivos, da poeira das estrelas e das luas dos planetas. O Corpo que temos é um resumo do Universo, um observatório espantoso do Milagre da Vida em que estamos mergulhados.
Mas dentro do ser humano este Milagre da Vida habita ainda mais profundamente, com uma intensidade relacional e consciente que não existe nas árvores nem nas montanhas nem na actividade interestelar. O Corpo que temos existe em função do Corpo que formamos. O Corpo que temos é natural; o Corpo que formamos é espiritual. O Corpo que temos é biológico; o Corpo que formamos é relacional. O Corpo que temos é uma composição transitória dos elementos da matéria; o Corpo que formamos é uma construção eterna dos desígnios do amor. O Corpo que temos é Individual; o Corpo que formamos é Pessoal. O Corpo que temos é o nosso elo com a Criação; o Corpo que formamos é o nosso vínculo com o Criador. Na Hora em que, finalmente, acabamos de morrer, o Corpo que temos recomeça o seu processo de composição cósmica, novamente, o processo de integração no âmago mais natural da Criação. Não acredito que haja “restos mortais”! Nada é “restos” numa pessoa, NADA! Nem acredito que o que venha a seguir se chame “decomposição” ou “desintegração”, porque o que realmente acontece é outra coisa… uma maravilhosa composição com toda a terra, uma integração nos dinamismos vitais do universo. (…)
A Irmã Morte tem conversado comigo sempre com voz suave, descalça-se diante do território sagrado do sofrimento, e segreda apenas os recados que traz graciosamente do lado mais profundo da Vida. Por isso é que é tão exigente ouvi-la, porque não faz barulho nem ruído. E com ela tenho aprendido que poucas coisas na vida são mais importantes do que a Sensibilidade, essa arte quase perdida de viver desarmado e exposto. Fizemos dos nossos dias campos de batalha, contra inimigos muitas vezes imaginados, outras vezes inventados e criados assim, e contra esse inimigo de quase toda a gente que é o “tempo”. E no campo de batalha, estar exposto e desarmado é aventura que quase ninguém arrisca…
(…)
A Irmã Morte vira-me sempre do avesso a pirâmide dos valores, e a Sensibilidade torna-se a coisa mais preciosa para a qual fomos feitos, a Atenção, a Vigilância respeitadora, a Iniciativa da Reconciliação, o Atrevimento do Amor e a Leveza da Paz.
Será ainda possível levar-me tão a sério quando estou diante de alguém que me morreu? A Irmã Morte costuma convidar-me a redescobrir a Humildade dentro de mim. A Humildade anda pelas ruas da amargura porque fizemos dela uma atitude servil de escravos. Mas não é nada disso… A Humildade é não colocar no centro da vida a procura do seu próprio interesse. Por isso é que a Humildade nos dá Liberdade, faz-nos a mente e o coração mais ligeiros porque nos livra do peso morto dos nossos medos e egoísmos. Aprender a Humildade é aprender a não mais ser um peso para si próprio. Isso acontece quando deixamos de nos considerar de tal modo vaidosos que achamos que tudo e todos nos devem explicações. Não se levar tão a sério é um dos segredos mais eficazes para crescer na arte de bem viver. A Irmã Morte às vezes parece-me a definitiva risada do imenso Universo sobre os nossos planos de tudo possuir, controlar e manter. A Irmã Morte é a provocação mais radical à Humildade que nos Liberta e Amadurece.
(Rui Santiago, cssr)
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