Páginas

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A MORTE E A SAUDADE

Ao falar na morte, falamos inevitavelmente na saudade que sentimos de alguém que partiu. As horas parecem dias, os dias parecem semanas e, de repente, ao olharmos para o calendário, verificamos que passaram longos anos. Manteve-se inalterável a lembrança do perfume, do gesto, do sorriso. O tempo não apaga, mas aconchega a dor. Arranja-lhe um cantinho ao fundo do peito. E, nesse cantinho, a recordação permanece viva, iluminada, até ao fim da nossa vida. De vez em quando, tem de se arranjar mais espaço para que se consigam acomodar outras dores. Desarruma-se tudo, volta-se a mexer em todo o passado que se esconde na recordação de um desgosto vivido, de uma perda sofrida. A morte unifica-nos. Perante ela, sentimo-nos infinitamente pequenos e tudo se relativiza. Que interessam os problemas profissionais? Que importa não podermos ir ao Brasil no fim do ano? O que separa a vida da morte não passa de uma frágil linha que a todo o momento ameaça quebrar-se. Por muito que queiramos arranjar airbags emocionais, face à perda, o único caminho é viver o luto. Entristecemo-nos, choramos, achamos que a vida perdeu todo o sentido. Cada pessoa vive a morte à sua maneira, sendo que a dor não tem, na sua essência, grandes diferenças. A manifestação da dor é que difere. A dor pode ser vivida no silêncio, como algo só nosso que não queiramos partilhar com mais ninguém. Algumas pessoas, perante a notícia da morte de outros (sobretudo quando falamos de alguém muito próximo como filhos ou pais), dizem: “Eu não aguentava”, como se, de algum modo, apontassem o dedo a todos aqueles que perante essas perdas conseguiram arranjar força para continuar a viver. Costumo perguntar-lhes que alternativa teriam, segura de que um ser humano aguenta a maior parte dos sofrimentos, sobrevive às maiores agruras que a vida lhe reserva. Certo é que um dia a ferida se transforma em cicatriz. Aprendemos a conviver com a dor. Voltamos a conseguir sorrir e, com frequência, passamos a dar mais valor às pequenas coisas. Pensamos com carinho nos amigos que nos ajudaram a ultrapassar os momentos difíceis. Espantamo-nos com a frieza de alguns que considerávamos próximos e com a delicadeza de outros com quem nem sequer pensávamos poder contar. A morte tem destas coisas. A realidade dá-nos uma estalada, e das duas, uma: ou nos tornamos mais fortes apesar das cicatrizes emocionais, ou sucumbimos perante ela. Não existe terceira hipótese.

(Carlinha)

Sem comentários:

Enviar um comentário