AS CRIANÇAS E A MORTE
«As crianças e os adolescentes dão conta de tudo o que ocorre à sua volta e excluí-los de conversas francas sobre os problemas da família é estimular dúvidas, levantar barreiras ao convívio e impedi-los de aprenderem a lidar com a situação. A criança está rodeada de eufemismos, metáforas e mentiras acerca da situação de morte, que podem confundi-la e fazê-la sentir-se enganada, desconfiada e, até, culpada, ou então desamparada e só.
O facto de os pais terem muita dificuldade em conversar com os filhos sobre a morte sugere que se escolham maneiras de o contornar, utilizando situações em que o tema ocorra espontaneamente e num contexto impessoal: passagem de desenhos animados ou filmes, por exemplo. Se na conversa exprimirmos o que sentimos, isso pode ajudá-los a fazer o mesmo.
Na fase pré-escolar, as crianças sentem curiosidade e fazem perguntas quando um familiar, um animal ou um vizinho morrem. Não entendem que a morte é para sempre, porque ainda não têm a noção de irreversibilidade. Imaginam a morte como nos desenhos animados: a personagem morre e depois levanta-se outra vez e continua a aventura. Sentem desgosto quando perdem alguém próximo sem perceberem muito bem o que estão a sentir e o que está a acontecer. Por vezes, acreditam que os seus próprios desejos foram a causa do desaparecimento da pessoa. É como se tivessem perdido uma parte “de si”. Demonstram os seus sentimentos através da forma como agem, uma vez que não têm muito vocabulário para se exprimirem. Nos primeiros anos de escola aprendem que a morte é permanente. Algumas sentem-se responsáveis ou preocupadas em saber quem vai tomar conta delas. Têm medo de perder outro familiar. São mais directas na forma como lidam com o assunto e sentem necessidade de obter informação acerca do sucedido. Ao chegar à adolescência começam a compreender o porquê da morte (doença, acidente, velhice, etc.), demonstram curiosidade em saber pormenores do acontecimento, exprimem-se melhor, ainda que nem sempre o façam, apercebem-se de que os outros (familiares, etc.) também estão a sofrer.»
(Eva Delgado Martins, psicóloga)
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