Defilhar
Quando um filho morre, nasce deficiente ou perde capacitações, os pais enfrentam um complexo de sentimentos e emoções determinados pelas aptidões com que a herança genética os dotou – o caráter – e pela educação formal e informal de que foram e são alvo – a personalidade. O “defilhar”, o luto pela perda de um filho, provoca um sofrimento atroz, por ameaçar o âmago da existência do próprio defilhado. Contrariam-se instintos, como o de preservação e cuidado da criança, e expectativas, como a vinculação, a sensação de segurança física e emocional. Frustra-se a prossecução intemporal do gene, da cortesia e da projeção de bondade universal. A dor intensa e prolongada do defilhar resulta da falência do cerne da vida: a interrupção da sua continuidade.
Como é que os pais vivenciam o luto?
O defilhar, embora seja complexo e, em regra, alongado por toda a vida, não se manifesta de forma doentia, na imensa maioria dos casos. O defilhado alterna o seu comportamento entre a desorganização emocional profunda e a consciencialização dos detalhes da perda, em todo o processo que contempla: a negação ativa da perda, durante a fase aguda do luto; a descrença da privação, caraterizada pela busca da multidimensionalidade da pessoa perdida; o reconhecimento da irreversibilidade da perda, que se manifesta em episódios de raiva, culpa, depressão, deceção, desapego, angústia, agonia e medo; a superação da perda, em que se opera uma reconciliação com o passado e se reassume o presente como o tempo adequado para a vida.
Será alguma vez possível extinguir essa dor ou é preciso aprender a viver com ela até ao fim da vida?
O sofrimento provocado pelo defilhar não é constante. À medida que o luto decorre, o defilhado encontra estratégias de conformação com a ausência ou a deficiência do filho. A superação do luto, neste processo, não culmina com a aceitação, como acontece, com frequência, na perda de antepassados ou na viuvez. O sentimento de ablação de uma parte de si próprio expõe o defilhado a uma ferida cavada, cuja cicatriz permanece indelével até ao fim dos seus dias. Todavia, superadas a negação, a descrença e o reconhecimento da perda, é possível conviver de forma serena e apaziguada com o passado, não com doces e suaves recordações, como nos lutos aceites, mas com memórias agridoces.
(José Eduardo Rebelo, biólogo da Universidade de Aveiro e investigador sobre o Luto)
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