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sexta-feira, 31 de maio de 2013

O LUTO DOS PAIS


«Existir supõe aprendizagens, e, mesmo nas mortes trágicas e precoces, devemos acreditar que aquele que partiu realizou e aprendeu o que deveria ter realizado e aprendido.
 “Se já não podemos vê-los nem ouvi-los com os nossos sentidos, podemos, contudo, percebê-los com o nosso coração. Eles estão mais próximos de nós do que quando estavam nesta vida”, escreve o médico Evaldo d’Assumpção, especialista em tanatologia.

(…)

Ganhos e perdas
A vida transita num ziguezague entre ganhos e perdas. Ao nascermos, ganhamos a vida independente, mas perdemos o aconchego e a protecção do útero materno e, no mesmo instante, começamos o desafio derradeiro: respirar ou morrer. Há nisso uma contradição? Não! Muito pelo contrário, esse é o projecto de vida que o Altíssimo nos deu: viver para morrer e morrer para viver. São duas faces da mesma realidade.
A tríade da existência biológica: nascer, viver e morrer, determina tempos diferentes no tempo de cada Ser. Tentamos viver como se a morte não existisse, ou, talvez, como se possuíssemos o controlo da vida. 
Mas a morte física é soberana e, quando vem, desperta-nos para a impermanência na matéria, para a finitude do visível, manifestando que a vida na terra é somente uma estação e não o ponto de chegada. E, para não nos assustar demasiadamente, Deus tornou-a imprevisível.
Nascemos subordinados ao espírito, cuja morada definitiva é a eternidade. Desde pequenos que nos mostram a flor que murcha e morre; o pássaro que sucumbe. Com esses exemplos, querem-nos fazer compreender a dinâmica da vida. Lição difícil! Não é? Viver é bom, mas dói, ao pensarmos no processo de transformação que a vida impõe. 
A vida e a morte, aparentemente ambíguas, parecem envolver um grande jogo de ganhos e perdas. Na verdade, porém, se acreditarmos e vivermos com fé, esperança, amor, teremos apenas ganhos.

Lutos
O luto é a dolorosa experiência das perdas terrenas. Provoca sofrimento físico, emocional e espiritual. As alterações físicas podem ser: dores de cabeça, disfunções digestivas e intestinais, fraquezas, desânimos; tristeza, medo, raiva, angústia, choros incessantes, e até depressão: são manifestações de dores emocionais. Nas perdas trágicas, poderão surgir sintomas de pânico. O luto passa por etapas, durando em média dois anos. Mas trata-se apenas de uma estimativa. Cada pessoa tem o seu tempo de elaboração conforme a sua condição emocional.
A pessoa enlutada precisa de viver as fases do luto. O que ajuda é ter alguém com quem conversar sobre a dor. Os grupos de apoio ao luto são terapêuticos e por isso recomendados. Se os sintomas debilitarem demais é necessário recorrer aos cuidados médicos. Deve-se ter amorosidade, paciência, escuta e outros cuidados com quem sofre.

O tempo de morrer
Durante a vida, até conseguimos planear ter um filho, mas a morte, que está fora do nosso controlo, põe termo ao nosso projecto. E, então, concluímos que ela veio fora de horas. Na opinião do médico Evaldo, isto ocorre “porque ainda estamos limitados ao espaço e ao tempo e temos valores extremamente pequenos e medíocres, mesmo em relação ao verdadeiro sentido da vida”.
Medimos a vida pelo fazer e conquistar. A lógica do existir supõe aprendizagens, e, mesmo nas mortes trágicas e precoces, apesar de toda a dor de quem fica, devemos procurar acreditar que aquele que partiu realizou e aprendeu o que deveria ter realizado e aprendido. Ele cumpriu a sua missão terrena. Devemos sempre crer que, morrendo, a vida continua e se renova e que “O que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno.” (2 Cor 4,18).
(…)

Quando a expressão biológica morre, a individualidade transforma-se e continua. Na individualidade, ainda estão vivos os entes queridos que partiram e vivem numa realidade que a maioria de nós desconhece, porque ultrapassa os limites da pura compreensão humana. Acreditando ou não, eles estão aqui, juntinho a nós.»

(Cleusa Tewes, terapeuta familiar e especialista em orientação familiar)

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