«A minha mãe - que hoje
faria 80 anos - tinha uns olhos tão meigos que parecia que queriam abraçar o
mundo.»
(in, O Meu Outro Pai,
Capítulo VI - O legado imortal, pág. 47)
«Na sua actividade
profissional, a minha mãe estava mais ligada à saúde infantil. (...) Houve muitas
mães que esperaram todo o tempo da doença da minha mãe, cinco meses e meio, com
esperança de que ela melhorasse, para levarem os filhos à vacina, já que eles
não queriam mais ninguém. Em vão, infelizmente.»
(in, O Meu Outro Pai,
Capítulo VI - O legado imortal, pág. 48)
«A minha mãe era
extremamente compreensiva, sensível, genuína e dotada de uma inesgotável
energia; andava sempre aos saltinhos de um lado para outro, não parava quieta.
Era amiga, companheira, cúmplice, desprendida e com um inacreditável sentido de
abnegação em prol dos outros, sobretudo das filhas, como convém a uma autêntica
“mãe galinha”. Ria-se a bandeiras despregadas quando eu me punha a imitar falas
e gestos de figuras públicas ou de outras que se cruzassem connosco nos
caminhos da vida. A sua simplicidade e a sua humildade deixavam boquiabertos
todos os que a conheciam. Movia-se por sentimentos verdadeiros e não
“metálicos”. Basta dizer que nunca queria levar dinheiro a ninguém que lhe
pedisse para ir a casa dar injecções, ainda que esse favor a penalizasse
monetariamente ou lhe causasse incómodos de alguma ordem.
Às vezes, quando ao
fim-de-semana – que a minha mãe aproveitava geralmente para tratar da lavagem
das roupas – o Sol andava arredado do estendal e depois lá dava o ar da sua
graça, ela, parafraseando São Francisco, punha-se a dizer:
– Irmão Sol, que bom!
Eu, desmancha-prazeres
inata, revidava:
– Escusas de estar a
bajular o Sol, que ele já desaparece outra vez.»
Na realidade, também
funciono a energia solar e as “baterias” do meu bom humor só carregam em
plenitude com o sol na “moleirinha”.»
(in, O Meu Outro Pai,
Capítulo VI - O legado imortal, pág. 48)
«A minha mãe era uma
mulher muito à frente do seu tempo, dotada de grande coragem e independência,
nada ligada a preconceitos ou qualquer espécie de subterfúgios que diminuíssem,
fosse de que forma fosse, a essência do ser humano. A bondade atravessava-a e
espelhava-se de modo inconfundível no olhar. Era totalmente verdadeira e não
havia nela o mais indelével vestígio de hipocrisia: a dissimulação ia contra a
sua natureza pura. Se tivesse alguma coisa a dizer a alguém fazia-o
frontalmente e, com esta atitude, não guardava ressentimentos.
Eu também não sou nada
apologista de uma “paz podre”, isto é, aquela harmonia aparente que só serve
para as pessoas não se empertigarem no momento, para, melhor dizendo, não se
desacomodarem, mas que não leva a lado nenhum, porque apenas adia uma solução
adequada. Se tivéssemos de discutir discutíamos, e depois ficava tudo bem.
Mesmo quando eu a aborrecia, ela, depois de preparar o jantar, vinha chamar-me
para comer. O amor suplanta qualquer tipo de conflito. E dá incontestáveis
lições de perdão.»
(in, O Meu Outro Pai,
Capítulo VI - O legado imortal, pág. 48)
«Posso afirmar que os
meus pais foram os meus “gurus” do perdão. As coisas que eles me aturaram! E a
prontidão que sempre demonstraram em ultrapassar, esquecer.
É vulgar ouvir-se dizer:
«Perdoo, mas não esqueço», ou «Perdoei, mas, quando penso nisso, ainda me dá a
volta ao estômago», «Vou perdoar, mas primeiro tenho de me vingar». Que espécie
de perdão é este? Eu era assim e, às vezes, ainda sou um pouco. Remoía os
ressentimentos como se fossem pastilhas elásticas, dando voltas e mais voltas
e, não raras vezes, esticava demasiado os acontecimentos até “fazer balões”.
Não compreendia que a intenção dos meus supostos agressores podia não ser
atingir-me, que era possível que eu não estivesse a fazer uma leitura correcta
dos episódios, que a minha conduta não é irrepreensível. Culpar os outros
isentava-me da responsabilidade pelos meus sentimentos e actos, e dava-lhes
poder para reger as minhas emoções. Esquecia-me, porém, de que, ao apontar-lhes
um dedo, tinha três apontados para mim! Mais vale, por conseguinte, seguir a
filosofia do sábio que escrevia na areia o mal que lhe faziam, a fim de que o
vento apagasse o registo, e na pedra o bem recebido, para que ficasse gravado
ad eternum.
Esta capacidade de perdão
no meu pai atordoava-me. Provavelmente porque foi com ele que aconteceram os
confrontos mais significativos e não esperava que ele me conseguisse perdoar.
Mãe é mãe e com ela a relação sempre foi boa; independentemente do que
ocorresse, a estrutura dessa filiação estava assegurada. Com o meu pai,
todavia, era diferente. E, apesar disso, ele perdoava. Que estranho, para mim!
Foi o que começou a chamar-me a atenção para algo nele que estava a escapar-me.
E esse “algo”, afinal, era muito!
À recém descoberta
competência para perdoar juntaram-se a benevolência, a paciência, a manutenção
da calma apesar do nervosismo, a fé, a prudência, a esperança, a sensibilidade,
o gosto e a ânsia de viver – certamente o que lhe prolongou a vida –, o
entusiasmo a contar as histórias – que passei a ouvir com muito mais agrado –,
uma experiência de vida extraordinariamente rica.»
(in, O Meu Outro Pai,
Capítulo VI - O legado imortal, págs. 49-50)
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