ESTAR PRESENTE
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Todas as separações desencadeiam a ansiedade primária da traição, de nos sentirmos abandonados às forças nuas da natureza.
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Vemos isto, às vezes, nos olhos das pessoas que estão muito doentes ou a morrer. Nas profundezas da sua alma, elas testemunham os embates dos exércitos de sentimentos, que, sucessivamente, se retiram e se enfrentam novamente. Há momentos em que os olhos se enchem de uma paz e sabedoria que constituem uma bênção para todos os que os vêem. Aqueles a quem viemos consolar, consolam-nos. Aqueles que pensámos que seriam o objecto da nossa compaixão viram as coisas do avesso e são os nossos fardos da vida que são por eles aliviados.
Há uma forma de estar com alguém que está a morrer que permite evitar a armadilha de nos sentirmos estranhos e inúteis. É, simplesmente, ser um companheiro. Estar em contacto com a nossa própria mortalidade. Recordarmo-nos de que também nós estamos a morrer. Aprender com aqueles a quem estamos a servir. Por mais alheada que uma pessoa esteja, ela irá valorizar o companheirismo. Ser-se um companheiro verdadeiro e valioso, não nos afastando quando nos sentimos afastados, é o que está no coração da compaixão. É um fruto de estarmos confortáveis connosco mesmo. Ser companheiro de outra pessoa é viver a verdade de que o estar sozinho não é aquela solidão que, inicialmente, tememos que fosse.
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Em certos momentos, o estar verdadeiramente presente com os que estão a morrer depende de conseguirmos ultrapassar o centramento em nós próprios. Transcendê-lo significa buscar a impotência dentro de nós mesmos, essa que, instintivamente, evitamos e de que fugimos. Poderemos gostar de olhar esta “pobreza em espírito” a uma distância segura e marcar encontro com ela para mais tarde. Gostamos de ler textos sobre ela e de ouvir outras pessoas descrevê-la. Mas tudo fica em causa quando decidimos atravessar a fronteira da pobreza em pessoa, passando da terra da ilusão para o reino da realidade.
(Laurence Freeman OSB)
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