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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O caminho da dor...

Ninguém quer sofrer. É da nossa natureza defendermo-nos da dor. A própria sociedade – a mesma que nos educa exclusivamente para o prazer – obriga-nos, em caso de luto, a uma rápida “reprogramação”, a fim de não perdermos nem mais um pingo de produtividade para além do legalmente estabelecido ou aceite (como se fosse possível engavetar no tempo, nas prioridades e no entendimento de outros o nosso pesar, o nosso ritmo, o nosso sentir!)… Trata-se de um estímulo a recusar a dor, a escondê-la, o que leva a que se vá avolumando e tornando doentia. É preciso sentir a dor para a vencer! É ela a fonte do nosso crescimento pessoal, e não o prazer instituído como lei universal e incontornável…
Há que ver que, quando estamos sob uma dor intensa que parece vir de uma profundidade de entranhas que não sabíamos, sequer, possuir, são normais a confusão, a desorientação e a dúvida acerca da própria sanidade mental. E não é mergulhando de cabeça no trabalho ou fazendo de conta que não aconteceu nada que se vai voltar ao trilho da suposta normalidade.
O desespero, a apatia, a negação do sucedido, a depressão, o medo, a raiva, a culpa, a amargura, os remorsos, a esperança e a aceitação podem coabitar, de forma mais ou menos alternada, num espírito a viver o luto. Temos de nos dar tempo e espaço na dor!
E, acima de tudo, não tentar modificar os sentimentos de cada momento, por considerarmos que “devíamos” estar a sentir aquilo em vez disto, ou por pensarmos não ser bem visto nem compreendido estarmos a sentir aqueloutro, muitas vezes por receio do julgamento dos outros.
Os Natais, os aniversários e outras ocasiões festivas, são tempos duros de saudade, de falta… Contudo, impõe-se a reconstrução da nossa nova identidade pessoal, que já inclua a(s) perda(s), através da construção de um novo sentido para a vida. Afinal, vivermos o melhor que pudermos constituía o maior desejo da pessoa por quem estamos a sofrer a morte, e é a melhor homenagem que lhe podemos prestar!
Se, por um lado, é legítimo zangarmo-nos com a ausência de quem nos é querido, por outro, é errado encarar a dor como um castigo. É necessário experimentar as várias fases desta dor, até porque ela não desaparece com distracções!
A dor – que ninguém é capaz de nos ensinar a como viver –, consoante a nossa capacidade de a vivenciar, encerra o potencial de funcionar como um grande trampolim para a esperança.
Perante a morte, dilui-se a ilusão do nosso poder pessoal e da auto-suficiência. Temos de parar de regatear o preço da vida!    E de transmitir a outros o amor pelo ente querido falecido! E de arranjar um modo próprio de não perder a ligação com quem morreu. O amor é mais forte do que a dor e do que a morte!!!

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